Pular para o conteúdo principal

O ser humano como corpo, psiquismo e espírito



O ser humano é expressividade. É vida que age, e, agindo, se constrói e se conhece na relação com o mundo, com os outros e com o divino, já que vive num horizonte aberto ao infinito

De forma mais imediata, o ser humano se conhece como corpo. O corpo é o lugar de sua expressão no mundo. O corpo aqui não é o simples objeto da ciência biológica nem da anatomia. É o corpo vivido como corpo próprio. Pelo corpo, tenho uma história — a história da espécie humana e a história familiar. É através do corpo que posso dizer onde e quando nasci e apontar o lugar e o tempo em que vivo. A vida corporal me faz um ser no mundo, existindo nas coordenadas do espaço e do tempo. 

Mas a expressão do ser humano não se identifica totalmente com o corpo. Ele se percebe como corpo, mas não somente como corpo. O ser humano se percebe também como psiquismo. Ele sente, prova emoções, tem memória e vive de acordo com seus projetos. Ele imagina e deseja. Tem ideias e conhece coisas e pessoas. Embora possa experienciar o negativo (medo, raiva, ódio…), o ser humano está de modo especial aberto aos outros através do respeito, da confiança, do consenso e do amor. Este é o mundo da psiqué (da alma), que transcende a experiência do corpo próprio. 

Todavia, o ser humano não é capaz apenas de emoções, sentimentos e pensamentos sobre coisas, pessoas ou sobre entes delimitados. Ele está aberto ao infinito. O ser humano vive desde sempre no horizonte da infinitude ou do absoluto. Ele é capaz do ser, da verdade e da bondade sem limites. É por isso que ele se percebe como sendo mais do que o psiquismo. O ser humano se percebe como espírito! O campo próprio do espírito é o campo do ser sem limitação, do ser irrestrito ou em sua amplitude ilimitada. Desde o início esse horizonte do ser já atua no homem, mas ele o reconhece depois de conhecer o diversos campos do que é limitado. Ao perceber-se transcendendo todos os limites dos entes delimitados, o ser humano se percebe como orientado para a ilimitação do ser. Pela reflexão filosófica, vê que o reconhecimentos do limitado como limitado só pode acontecer no horizonte do ilimitado, que se mostra, então, como a raiz da vida do espírito e como condição de possibilidade de toda a vida humana como tal. O homem não perceberia nenhum limite se não vivesse para além de todo limite, se não vivesse a vida do espírito!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Escatologia intermediária: visão de Deus e espera da ressurreição final

A fé cristã afirma, desde os seus primórdios, que a morte não é o termo último da existência humana. No entanto, essa afirmação não implica que a ressurreição se dê imediatamente após a morte, nem que ela consista numa simples revivificação do cadáver, como se o destino final do homem fosse uma repetição ampliada da vida biológica. Pelo contrário, uma compreensão mais profunda da escatologia cristã exige distinguir claramente entre o estado intermediário após a morte, em que o eu subsiste e pode aceder à gloria da visão de Deus, e a ressurreição plena no fim dos tempos, bem como entre ressurreição e mera volta à vida como se dá neste mundo. 1. A escatologia intermediária: sair do tempo cronológico Quando o ser humano morre, ele deixa o tempo cronológico, sucessivo, mensurável como o conhecemos — o tempo da história tal como a vivemos neste mundo. A morte marca a passagem para uma outra modalidade de temporalidade, que pode ser chamada de tempo psíquico ou tempo do espírito. Seguindo a...

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Marín-Sola e o desenvolvimento da teologia da graça

  Francisco Marín-Sola, um teólogo dominicano do século XX, foi um dos principais responsáveis pela reformulação da tradição bañeziana dentro do tomismo. Ele buscou suavizar alguns aspectos da doutrina da graça e predestinação, especialmente no que diz respeito à relação entre a liberdade humana e a causalidade divina. Sua obra tentou conciliar a soberania absoluta de Deus com uma maior ênfase na cooperação humana, evitando o determinismo implícito no modelo de Bañez e Garrigou-Lagrange. ⸻ 1. Contexto da Reformulação de Marín-Sola • A escola tomista tradicional, especialmente na versão de Domingo Bañez e Reginald Garrigou-Lagrange, defendia a moción física previa, segundo a qual Deus pre-move infalivelmente a vontade humana para o bem ou permite o pecado através de um decreto permissivo infalível. • Essa visão levantava críticas, pois parecia tornar Deus indiretamente responsável pelo pecado, já que Ele escolhia não conceder graça eficaz a alguns. • Francisco Marín-Sola...