Pular para o conteúdo principal

Jesus, os pobres e os pobres pelo espírito


Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est Regnum coelorum (Mt 5,3).

Makárioi hoi ptokói tw pnéumati, hóti autwn estín h basiléia twn ouranwn (Mt 5,3).

Bem-aventurados os pobres pelo espírito, porque deles é o Reino dos céus (Mt 5,3).

O Jesus mateano proclama bem-aventurados os pobres pelo espírito (tw pnéumati). O Jesus lucano proclama bem-aventurados os pobres sem mais, os lascados, aqueles que o escutavam (cf. Lc 6,20).

Qual versão reflete a pregação histórica de Jesus? Os exegetas não têm dúvida de que seja a versão de Lucas. Jesus, que tinha como centro da sua mensagem a vinda do Reino de Deus, lançava uma palavra de esperança para aqueles que não podiam esperar nada do mundo. O Reino haveria de colocar ordem onde o pecado dos homens só causara desordens. 

Mas então Mateus espiritualizou a mensagem de Jesus ao acrescentar tw pnéumati? Ter-se-ia afastado da concretude dos desesperados a quem Jesus se dirigia? Eu diria que não! Mateus, certamente procurou atualizar a mensagem de Jesus para situações novas, mas o fez sem a trair. A versão lucana poderia dar a impressão de que os não-lascados não fossem também destinatários da alegre mensagem da intervenção de Deus para dar ordem às coisas. Mateus percebeu corretamente que mesmo os não-lascados, que eram a maioria na sua comunidade, podem deixar-se introduzir na dinâmica do Reino desde que façam uma opção consciente, isto é, desde que se tornem pobres pelo espírito. Tornar-se pobre pelo espírito significa escolher, já que é pelo espírito que o homem é livre. Mas como ser pobre por escolha e decisão? Sendo comprometido com o Reino que Jesus veio anunciar. 

O Reino toca em causas que o mundo considera perdidas ou impossíveis, como a vida justa, a promoção dos pequenos, o cuidado dos lascados, o serviço dos doentes,  a autodoação, o respeito pelas pessoas nas relações.... Se eu decido comprometer-me de maneira viva e concreta com essas causas que não valem nada para a mentalidade mundana, eu escolho ser pobre com os pobres, os quais, agindo com esperança, confiam para além das possibilidades do mundo, confiam em Deus!

Comentários

  1. O Reino toca em causas que o mundo considera perdidas ou impossíveis...

    ResponderExcluir
  2. Grande mestre tem muito a nos ensinar tenho saudade do tempo o senhor dava lição da bíblia tempo bom saudades!!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Deus como “Esse Subsistens”: um “conceito saturado” para a razão

Na filosofia de Santo Tomás de Aquino, uma das expressões mais densas e provocadoras do mistério divino é aquela que designa Deus como ipsum esse subsistens — o próprio Ser subsistente . Esta fórmula, que representa o cume do pensamento metafísico, não pretende, contudo, oferecer uma definição de Deus no sentido estrito e exaustivo. Antes, ela marca o limite e a elevação máxima a que a razão pode chegar no exercício de sua abertura ao ser. Com efeito, o ser ( esse ) é aquilo que primeiro se apreende pelo intelecto; é o ato mais íntimo e profundo de tudo o que é. Apreendemos o ser presente nos entes antes de reconhecermos o Ser puro subsistente como seu fundamento absoluto.  Ora, ao afirmar que Deus é o Ser subsistente, Santo Tomás quer dizer que em Deus não há distinção entre essência e ato de ser pleno, entre o que Ele é e a sua existência necessária. Ele é o próprio Ser — não como um ser entre outros, nem como um gênero supremo, mas como o Ato puro de ser, sem nenhuma composição...

A Primeira Via de Santo Tomás

A primeira via de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus é a chamada prova do motor imóvel, que parte do movimento observado no mundo para concluir a existência de um Primeiro Motor imóvel, identificado como Deus. Ela é formulada assim: 1. Há movimento no mundo. 2. Tudo o que se move é movido por outro. 3. Não se pode seguir ao infinito na série de motores (causas de movimento). 4. Logo, é necessário chegar a um Primeiro Motor imóvel, que move sem ser movido. 5. Esse Primeiro Motor é o que todos chamam de Deus. Essa prova se fundamenta em princípios metafísicos clássicos, especialmente da tradição aristotélica, como: • A distinção entre ato e potência. • O princípio de que o que está em potência só passa ao ato por algo que já está em ato. • A impossibilidade de regressão ao infinito em causas atuais e simultâneas. Agora, sobre a validade perene dessa via, podemos considerar a questão sob dois ângulos: 1. Validade ontológica e metafísica: sim, perene A estrutura m...

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...