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O domínio da técnica e o anseio de transcendência


Heidegger vê o domínio da técnica em nosso tempo como fruto maduro de algo que já estava presente na filosofia grega a partir de Platão. A partir de Descartes, segundo Heidegger, houve uma intensificação do que já existia, isto é, a pretensão de dominar as coisas pela sua representação na mente. Para o pensador da Floresta Negra, o aparato técnico só se impôs porque o homem esqueceu-se do Ser. O Ser não é o ente que cai na representação, mas lhe é anterior e lhe dá a condição de possibilidade de ser o que é. A representação do ente e o conceito de verdade como correção ou adequação teriam afastado para longe o Ser e, em consequência, aberto o caminho da dominação técnica ou da manipulação extrema dos entes. 

O humanismo da metafísica ocidental estaria baseado nessa capacidade de o homem representar o ente. Nesse sentido, na medida em que o homem superar o humanismo é que ele poderá ser o pastor do Ser. O humanismo, para Heidegger, coloca o homem no centro, o homem com a representação do ente em sua inteligência, o homem que, ao dominar o ente, esquece-se do Ser do ente. Mas o centro é o lugar do Ser, não do homem. 

 O esquecimento do Ser teria mesmo começado com Platão como quer Heidegger? Essa é uma questão controversa, sobre a qual os estudiosos disputam. Como quer que seja, têm surgido severas e eruditas críticas a Heidegger, as quais veem que o paradigma que ele aplica invariavelmente a toda a história da filosofia não é senão fruto de seus próprios pressupostos. Não se poderia falar de esquecimento do Ser a respeito do neoplatonismo, de modo especial de Porfírio (que usa a expressão tó einái, o verbo ser no infinitivo, para falar da realidade mais real), nem da filosofia do ato de ser de Tomás de Aquino, recuperada no século XX por eminentes pensadores, quais J. Maritain, E. Gilson e C. Fabro. 

 A nosso ver, o esquecimento do Ser tem seu grande começo quando se inaugura o conhecimento científico moderno no século XVII, que em si mesmo, é um conhecimento vocacionado à manipulação técnica. A ciência moderna conhece por um ato de abstração extrema, pois que reduz o real às constantes matematizáveis. A transcendência real, que podemos reconhecer numa filosofia do Ser, é transmutada em transcendência lógica. A inteligência, que, partindo do mundo sensível, chegava a reconhecer na transcendência do inteligível uma realidade mais densa e mais real como fundamento, passa a funcionar como representadora e operadora de um mundo indefinido de objetos potencialmente manipuláveis em linha horizontal. 

A pergunta que se levanta aos olhos do filósofo e do teólogo é esta: estaria a dominação do aparato técnico à altura do homem e de seus anseios mais profundos? Para muitos, essa pergunta não poderia nem mesmo ser levantada, visto que não há resposta para quem seja o homem. O estruturalismo, por exemplo, dilui o homem nas estruturas, e o pós-estruturalismo pretende liquidar de vez com a ideia mesma de homem. Daí, aos olhos de muitos, ser impossível uma antropologia que quisesse falar de traços essenciais do homem. 

No entanto, um grande filosofo brasileiro ousa ainda fazer antropologia filosófica. E oferece boas razoes para isso. Trata-se do jesuíta Henrique Claudio de Lima Vaz. O homem, para Lima Vaz, é expressividade. Não é um sujeito puro, mas é um sujeito que se expressa por meio da natureza, do mundo, das relações e das condições que lhe são impostas. O motor da expressividade é a abertura ao Ser, que distingue o homem desde a sua raiz mais profunda. Antes de tudo, o homem se vê como um corpo, mas entre o corpo e a sua intencionalidade última, que é o Ser, não há simetria; logo, o homem é mais que o seu corpo próprio. O homem se vê também como psiquismo, mas entre o psiquismo e a sua intencionalidade última, que é o Ser, não há simetria; logo, o homem é mais que o seu psiquismo. O homem, então, se vê como espírito; só entre espírito e ser há simetria. O espírito é tal por sua correlação com a infinitude do Ser. Diz Lima Vaz sobre a atividade humana:
 “(...) o somático e o psíquico, que se mostram como estruturas necessariamente pressupostas a seu exercício, são suprassumidos na intencionalidade própria do espírito, ou seja, na abertura do espírito à universalidade do ser”. 
A etimologia da palavra espírito já indica que para o espírito não há delimitação; ele é como o vento que corre pelo infinito. 

Mas atenção: a simetria entre o espírito finito do homem e o Ser é simetria formal; por isso, o homem será sempre ânsia pelo Ser absoluto real. O homem é ser na natureza, ser com os outros, ser no mundo e, finalmente, ser para a transcendência. Pela presença formal do Ser no seu espírito, o homem é, desde a raiz, ser para a transcendência. Por causa da transcendência formal do Ser em seu espírito, o homem é lançado na busca da Transcendência real, causa e fim da transcendência formal. A questão decisiva que se joga aqui não é senão uma: poderá o homem, que é abertura e ao Ser, satisfazer-se com o mundo horizontalmente indefinido de objetos técnicos? O homem poderá renunciar a finalidades para entregar-se a meios que se tornam fins? 

A abertura humana ao Ser supõe que o próprio Ser atue no homem. Agostinianamente falando, o homem não procuraria o Ser se o Ser já não fizesse morada no seu íntimo. E, no entanto, essa presença mais íntima do que a intimidade humana, pode ser obnubilada. Agostinho experimentou na carne o drama de procurar fora o que desde o início estava dentro. A relação do homem com o Ser exige a subida do espírito, pois que o Ser, de cuja intencionalidade vive o espirito, está sempre além — e pode-se dizer que, para usar uma metáfora espacial, está acima de toda a atividade humana dada ou realizada neste mundo —, ao passo que a cultura da dominação técnica exige a dispersão do espírito no mundo dos instrumentos e dos objetos usados e construídos. Estamos aqui diante de duas concepções antropológicas antagônicas, em forte tensão e conflito: o sentido substancial da existência do homem está na potencialização dos instrumentos ou está no reconhecimento do Ser

Diante dos poucos elementos da antropologia de Lima Vaz que vimos, a resposta não é difícil: o homem é possuído pelo Ser antes de possuir coisas pela técnica. Mas estará o nosso tempo apto a ouvir a voz do Ser, que brota nas mais profundas regiões do espírito? Ou se deixará cada vez mais consumir pela dispersão, isto é, pela busca sem fim do dominável e operável – num movimento que Hegel chamava de mal infinito?

Comentários

  1. Para ler e reler. Texto indispensável. Me fogem as palavras, só posso dizer: Me perdi em meu próprio Ser. Fantástico.

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  2. Mas o Ser não deu ao homem a ordem de dominar o mundo? Acho que é possivel buscar o dominavel e o operavel sem deixar de ouvir a voz do Ser.

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    1. O papel do homem é muito mais o de reconhecer o mistério e a gratuidade do existir do que o de dominar. Dominar despoticamente a natureza nunca esteve nos planos de Deus. O domínio de que fala a Bíblia é um domínio feito com sabedoria e exercido como tarefa que se recebe de Outro, não o domínio despótico como vem acontecendo.

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