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Entre a morte e a ressurreição - Parte V (final)

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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Parte V (final) 

Corporeidade

A tese que postula a ressurreição na morte implica, segundo Ratzinger, uma deslocalização do próprio conceito de ressurreição, uma destemporalização da criatura humana e, como conseqüência, uma desmaterialização próxima do gnosticismo[1]. A nova tese parece sucumbir ante o que pretendia negar: o dualismo.

Diante, então, da pergunta inevitável – como será a corporeidade da ressurreição? -, Ratzinger diz que o material bíblico não se preocupa em determinar a exata natureza de tal corporeidade, mas assegura que “a idéia de que ao final, seja como for, a totalidade da criação de Deus entra na salvação resulta tão clara que qualquer sistematização reflexiva sobre o material bíblico tem de ter muito em conta essa idéia”[2].

Paulo e João oferecem elementos que, a um só tempo, mantêm-se à distância, quer do fisicismo ou naturalismo presente em muitos judeus da época, quer do espiritualismo gnóstico. Tal meio-termo pode ser denominado realismo.

Paulo fala de “corpo espiritual”, expressão que soa algo contraditória, mas que revela a distância quer do fisicismo, quer do espiritualismo[3]. Diante de sua experiência com o Ressuscitado, ficou-lhe claro que a ressurreição não pode ser uma simples revificação do cadáver. Mas, ao mesmo tempo, insistia na ressurreição dos corpos por ocasião da vinda de Cristo, não obstante o justo estar já em comunhão com o Senhor logo após a morte. 

A posição de Paulo faz recordar o capítulo eucarístico de João, que, num outro contexto, conserva também a mesma tensão. O Jesus joanino insiste em que a sua carne é verdadeira comida, carne em todo seu realismo, a ponto de mandar ir embora quem não aceitasse sua doutrina; mas, ao mesmo tempo, diz que é o Espírito que dá a vida, a carne para nada serve. “A 'carne' de Cristo é 'espírito', e o espírito de Cristo é 'carne': só nesta tensão se pode ver o especial e novo realismo do Ressuscitado, acima de todos os naturalismos e espiritualismos”[4], comenta Ratzinger.

O realismo pneumático da Escritura encontrou uma fórmula madura, segundo Ratzinger, na noção tomista anima forma corporis. Conforme essa noção, que já não é simplesmente aristotélica,   ambos – corpo e alma – são realidades, uma a partir da outra, e é por referência mútua que se encontram. Nesse sentido, a alma jamais pode desprender-se totalmente de sua relação com a matéria. Mesmo sem a matéria de seu corpo, guarda em si a matéria de sua existência.

Sendo a alma a forma do corpo, resulta que não é determinada matéria que confere identidade à corporeidade. A alma, como forma, está aberta à matéria enquanto tal, não necessariamente presa a esta ou àquela matéria. Prova disso é o fato de, de 7 em 7 anos, nossas células renovarem-se totalmente. A identidade da corporeidade não depende da matéria, senão da alma. Disso resulta que há distinção entre “organismo” e “corporeidade”. A corporeidade não depende de determinados átomos ou moléculas, mas simplesmente da matéria que subjaz à força expressiva da alma. A matéria glorificada deixará fulgurar com toda força a expressão do “eu” humano beatificado pela visão de Deus. Deixemos falar o Cardeal Ratzinger:

A novidade cristã encontrou sua expressão mais vigorosa na fórmula: “A alma é a forma do corpo”. Tomás de Aquino certamente tomou essa fórmula de empréstimo a Aristóteles. No entanto, ele deu ao pensamento deste um significado profundamente novo; e também o Concílio de Viena pôde aí encontrar a expressão adequada a uma antropologia cristã, que ele defendeu nas controvérsias da época como sendo a própria expressão da fé. A partir da fé na criação e na esperança cristã, que se prende à primeira, chegou-se, aqui, a uma posição que supera tanto o monismo quanto o dualismo, e que deveria ser incluída entre os elementos fundamentais e preciosos de uma antropologia cristã. Além do mais, um cristão (e, com mais forte razão, um pensador) não deveria considerar o monismo como algo de menos perigoso e menos fatal que o dualismo. A partir da fórmula antropológica de Tomás de Aquino, não posso deixar de aprovar (com a condição de que seja bem compreendida) a declaração de Greshake: 'Para mim o conceito de uma alma libertada do corpo não é absolutamente um conceito'. Que o homem, durante toda a vida, integre a si a matéria e que, por conseguinte, mesmo na morte, não rejeite este laço que tem com ela, mas o leve consigo, constitui, dentro da perspectiva supracitada, algo de absolutamente claro. Somente assim a relação com a Ressurreição assume todo seu sentido. No entanto, justamente por este fato, não há necessidade de se negar o conceito de alma, nem de substituir a alma por um novo corpo. Não é este ou aquele corpo que fixa a alma, porém é a alma que continua a existir e que retém em si, interiorizada, a matéria de sua vida, esperando impacientemente o Cristo ressuscitado, para uma nova união entre espírito e matéria, união que se abre nele.[5]

Note-se que, para Ratzinger, o homem ressuscitado na consumação do mundo manterá uma relação nova com a matéria, transfigurada pela glória divina, relação essa que, de algum modo, implica o universo cósmico, já que pertence à essência mesma do homem o relacionar-se com os outros. O éon da futura glória será o arrematamento da criação, então plenificada pelo Espírito e integralmente salva.

 Ademais, assegura-nos Ratzinger:

[...] não há maneira alguma de imaginar-se o novo mundo. Tampouco dispomos de uma classe de enunciados concretos que nos ajudem a imaginar, de alguma maneira, como o homem se relacionará com a matéria no novo mundo e como será o 'corpo ressuscitado'. Mas temos segurança de que a dinâmica do cosmos leva a uma meta, a uma situação na qual matéria e espírito se entrelaçarão mutuamente de um modo novo e definitivo. Esta certeza segue sendo também hoje, e precisamente hoje, o conteúdo concreto da fé na ressurreição da carne[6].


CONCLUSÃO
           
Na medida de nossas limitações e do tempo disponibilizado para esta palestra, tentamos transmitir algo do pensamento escatológico de Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, pensamento rico e multifacetado, que não se deixa apreender só de um golpe de vista.

Cremos que o que distingue o teólogo Ratzinger é sua preocupação em ser fiel à Esposa do Cordeiro, a Igreja, depositária viva da Revelação, e, ao mesmo tempo, atender às exigências mais profundas do pensamento e das questões que este lança à própria fé. Pensar a fé, eis o que se pode dizer da tarefa que Ratzinger se impõe a si mesmo.



BIBLIOGRAFIA

Principal:

Secundária:
  • COMISSÃO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA. A esperança cristã ma ressurreição: algumas questões atuais de escatologia. Petrópolis: Vozes, 1994.
  • NOCKE, Franz-Josef. Escatologia. In: SCHNEIDER, Theodor (org). Manual de dogmática. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
  • SANTO IRENEU. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 1997.


[1]    RATZINGER, Escatología, p. 155ss.
[2]    RATZINGER, Escatología, p. 161.
[3]    RATZINGER, Escatología, p. 159.
[4]    RATZINGER, Escatología, p. 160.
[5]    RATZINGER, entre a morte e a ressurreição, p. 84.
[6]    RATZINGER, Escatología, p. 181-182.

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