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O drama do mal

A presença do mal no mundo é inquietante e desafiadora. Inquietante porque não nos rendemos à vitória final do mal, uma vez que uma forte orientação para o bem habita em nós. Desafiadora porque essa mesma orientação ao Bem infinito nos leva, ou ao menos deveria levar, a combatê-lo enquanto puderem nossas forças.

Ao cristão e a todo aquele que professa a existência de Deus criador, que é a Bondade mesma e a Beleza mesma, surge a grande questão: se Deus é bom, de onde vem o mal? Se a criação é ontologicamente boa e bela, já que é fruto da Bondade e da Beleza, por que há nela o mal e a fealdade?

O conceito de mal não é unívoco. Por isso, é comum distinguir o mal físico, o mal psíquico e o mal moral. Todos os tipos de mal, entretanto, fazem referência a uma só realidade: a dor. O conceito de mal é análogo porque todo tipo de mal refere-se à dor. A dor é o grande escândalo. E a dor do inocente é muito repugnante.

Em termos metafísicos, devemos dizer que o mal subsistente, o puro mal, não existe, pois o ser, na medida em que é, é bom e belo. Só o ser existe. O que chamamos de mal, portanto, outra coisa não é do que a carência de um bem devido. O mal existe, é real, mas não subsiste por si. O mal supõe o ser, que é sempre bom, do qual ele é uma privação. O mal, assim, só pode existir nos seres finitos, como é o caso do mundo criado. As criaturas, com efeito, pela razão mesma de serem finitas, trazem em si a possibilidade de falhar e de fato falham. A possibilidade do mal é, de certo modo, natural à constituição do ser finito. Não há nada de mal em ser finito. O mal advém do fato de que o ser finito falha em sua operação, resultando daí a carência de um bem devido. Essa reflexão nos livra do dualismo, segundo o qual deveríamos professar a existência de um princípio do mal ao lado do princípio do bem para explicar a presença do mal no mundo. Só há um princípio: a Bondade/Beleza subsistente. 

A reflexão metafísica que fizemos é válida, mas não basta. Diante do mal, a filosofia não é suficiente por si mesma. Ainda que entendamos que o mal só existe por causa do bem, isso não toca o profundo mistério no qual nos vemos metidos: Por que? Para quê? Somos carentes de sentido. Estamos sempre orientados para o belo. O mal, na verdade, é um mistério. Por que Deus o terá permitido nos moldes concretos como se dá? Se Deus é todo-poderoso, não poderia ter criado um mundo melhor?

De uma coisa, contudo, podemos ter certeza, nós que professamos o Deus criador, o Deus de Jesus Cristo, a Bondade e Beleza em si: Deus, sabedoria e bondade infinitas, jamais permitiria o mal se não pudesse dele tirar um bem maior. Com efeito, a onipotência de Deus não é arbitrária, pois nele essência e poder, bondade e sabedoria são a mesma coisa[1]. Eis as palavras de Santo Agostinho:
Pois o Deus todo-poderoso..., por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir nas suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal.[2]
Essas palavras muito sábias de Santo Agostinho, se não respondem de forma meridiana à questão do mal, leva-nos, contudo, à confiança mística em Deus. Toda a economia cristã constitui um convite à confiança na sabedoria de Deus, que mesmo de um mal moral, pode extrair um bem se a livre vontade humana não se lhe opuser. A mensagem do cristianismo, se não explica o mal, envolve-o, contudo, em um clarão de fidedigna esperança.

Podemos e devemos mesmo dizer que o Deus de Jesus Cristo não é indiferente ao mal que padecemos. Deus mesmo quis assumir nossa natureza humana e nossas dores em Jesus Cristo. Jesus, diante do mal, foi aquele que o combateu, mas que também o sofreu. E o seu sofrimento não se tornou causa de revolta contra a vida, mas ocasião de união mística com o Pai (Abbá), que visa sempre ao bem. Nossa atitude diante do mal deve ser a de Jesus: combatê-lo tanto quanto nossas forças o permitirem, e fazer do mal inevitável ocasião para a confiança em Deus, que, em seus insondáveis desígnios, tudo ordena para o bem. A ressurreição de Jesus após o sofrimento da cruz é o grande estandarte da nossa esperança. A Bondade e a Beleza triunfam de tudo.
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Arquidiocese de Juiz de Fora
[1]Cf. Santo Tomás. Summa Teologiae, I, XXV, 5.
[2] Santo Agostinho. Enchiridion, III, 111.

Comentários

  1. Estamos sempre orientados para o belo. O mal, na verdade, é um mistério. Por que Deus o terá permitido nos moldes concretos como se dá? Se Deus é todo-poderoso, não poderia ter criado um mundo melhor?
    Elilio, aí está o ponto chave. Porque??????Por mais que eu procure,estude, não consigo alcançar o porque de tanto sofrimento no mundo, se o nosso Deus sempre pregou o bem, o amor.Porque tanto ódio?
    Escreva mais sobre este tema.
    Um abraço
    Lecy

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