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A Divina Misericórdia

Estamos no tempo pascal. É, sem dúvida, um tempo de muitas graças e bênçãos. Cristo ressuscitou! O Senhor Deus tirou dos males da humanidade o grande bem da salvação. Do pecado tirou a graça; das trevas, a luz; da morte do inocente, a vida para os pecadores que dele se aproximam. Com efeito, Deus sabe realizar maravilhas. O salmo 118 ajuda-nos a celebrar a grandeza e a bondade de Deus neste tempo pascal: “ A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou. Não morrerei, mas ao contrário, viverei para contar as grandes obras do Senhor!” Tirar dos males o bem é próprio de Deus. Do enorme pecado – a morte de Jesus Cristo na cruz –, o Deus de misericórdia tirou a salvação para toda a humanidade. Sim; só poderemos entender esse modo de Deus agir se reconhecermos que ele é o Deus de misericórdia. Ele tem o coração ( cor ) voltado para os miseráveis ( miseri ). Os miseráveis somos todos nós, que caminhamos sob o peso dos nossos pecados. Somos miseráveis porque nã...

O mistério da Igreja

Padre Elílio de Faria Matos Júnior No mistério da Igreja resplandece sua beleza A Igreja é, antes de tudo, um mistério. Ela está associada de modo íntimo ao mistério de Jesus e, como tal, é parte integrante do plano salvífico de Deus para todos os povos. "Nela se revela o 'mistério' do desígnio eterno de Deus, que é o de dar à humanidade o acesso à salvação em Cristo e fazê-lo Chefe universal da Criação" [1]. Quando afirmamos ser a Igreja um mistério - mysterium -, intencionamos dizer que a Igreja ultrapassa seu aspecto visível e humano. Nela, no seu interior, habita a graça de Deus, que, conforme o desígnio divino, ordena-se à salvação, isto é, à santificação ou divinização dos homens. A Igreja, assim, é uma realidade humano-divina. A Igreja remonta ao próprio Jesus [2] . Jesus é seu divino fundador: esta é uma proposição constantemente afirmada pelo Magistério e confirmada pelo Concílio Vaticano II: "O mistério da santa Igreja manifesta-se na sua fun...

A Semana Santa e nós

. Padre Elílio de Faria Matos Júnio r Com o Domingo de Ramos, os católicos iniciam as celebrações da chamada semana santa, cujo destaque recai sobre o tríduo pascal (quinta-feira santa, sexta-feira santa e sábado santo), quando a Igreja celebra a “passagem” - paixão, a morte e a ressurreição- de seu Senhor, Jesus Cristo. Os aleluias festivos da ressurreição são rompidos na noite do Sábado para o grande Domingo da Páscoa. Na verdade, os mistérios celebrados na semana santa dizem respeito a todo homem que vem a este mundo, sem exceção. A fé católica sustenta que a verdade sobre quem somos esclarece-se à luz da vida de Cristo, principalmente à luz de sua paixão morte e ressurreição. As questões fundamentais da existência humana – De onde vim? Para onde vou? Que devo fazer? Qual o sentido da vida? – recebem de Cristo as respostas que todo homem gostaria de ouvir. Fomos feitos por Deus e para Deus, e Jesus é quem nos revela a verdadeira face do Pai, fundamento da nossa existência. Um...

Entre a morte e a ressurreição - Parte V (final)

. Padre Elílio de Faria Matos Júnior Parte V (final)  Corporeidade A tese que postula a ressurreição na morte implica, segundo Ratzinger, uma deslocalização do próprio conceito de ressurreição, uma destemporalização da criatura humana e, como conseqüência, uma desmaterialização próxima do gnosticismo [1] . A nova tese parece sucumbir ante o que pretendia negar: o dualismo. Diante, então, da pergunta inevitável – como será a corporeidade da ressurreição? -, Ratzinger diz que o material bíblico não se preocupa em determinar a exata natureza de tal corporeidade, mas assegura que “a idéia de que ao final, seja como for, a totalidade da criação de Deus entra na salvação resulta tão clara que qualquer sistematização reflexiva sobre o material bíblico tem de ter muito em conta essa idéia” [2] . Paulo e João oferecem elementos que, a um só tempo, mantêm-se à distância, quer do fisicismo ou naturalismo presente em muitos judeus da época, quer do espiritualismo gnóstico. Tal meio-termo...

Ratzinger e Flores d'Arcais

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Sobre o livro: RATZINGER, Joseph; D'ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? São Paulo: Planeta, 2009. De um lado, temos Joseph Ratzinger; de outro, Paolo Flores d’Arcais. São duas posições distintas sobre a natureza e o papel do Cristianismo e também sobre a natureza e o papel da razão humana. Os dois até chegam a admitir que possa e mesmo deva existir uma colaboração, no que diz respeito aos valores humanos mais básicos, entre cristão e não-cristão, entre crente e não crente. Admitem, assim, um campo de valores comuns a todos os homens. O simples fato de sermos homens coloca-nos a todos no âmbito comum de uma ampla gama de valores humanos, como a justiça, a honestidade, a solidariedade, a sinceridade, etc. Entretanto, esse acordo entre Ratzinger e Flores d’Arcais, embora importantíssimo para a convivência e a construção de uma sociedade digna do homem, é, a meu ver, em termos teóricos, muito frágil. A fundamentação que Ratzinger dá aos valores...

Entre a morte e a ressurreição - Parte IV

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Parte IV Alma e imortalidade da alma Do acima exposto, ficou claro que para Ratzinger é despropositado falar em ressurreição no momento da morte, pois que isso implicaria algo impossível: a entrada do homem na eternidade de Deus, em que passado e futuro estão atualmente presentes no único e eterno presente divino. O homem passa, sim, a uma outra dimensão ao deixar o bíos , mas não entra na eternidade. Ratzinger usou a expressão “tempo da memória” para falar dessa realidade nova. Isso, então, quer dizer que o homem está à espera da consumação de todas as coisas em Deus, está à espera da plenitude do Corpo de Cristo. Daí a verdade profunda da insistência das Sagradas Escrituras na ressurreição no “último dia”, no “fim dos tempos”. Ademais, dizer que o homem entra na eternidade por ocasião da morte implicaria uma desvalorização da história que está acontecendo e ainda não terminou. Uma pergunta agora surge: qual o elemento que garante a permanência d...

Entre a morte e a ressurreição - Parte III

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Parte III 3. POSICIONAMENTO TEOLÓGICO DE JOSEPH RATZINGER Diante de tudo o que dissemos até agora, surgem pelo menos três questões: é aceitável o novo conceito da relação entre tempo e eternidade? O novo conceito de corporeidade pode ser assumido como sendo cristão? A tradição eclesial, professando a imortalidade da alma, de um lado, e a ressurreição no fim dos tempos, de outro, teria corrompido o que é genuinamente cristão com conceitos gregos dualistas? Em vista da solução desses problemas, vocês, caros ouvintes, estão aqui para saber o que o teólogo Joseph Ratzinger tem a dizer. Nossa palestra tem um subtítulo que nos arremete à escatologia de Ratzinger. É dela, pois, que devemos tratar. Vimos que Ratzinger começou querendo “desplatonizar” a escatologia tradicional, o que significa: queria rejeitar o conceito de alma imortal, queria afirmar uma antropologia monista, queria reivindicar a idéia de ressurreição no momento da morte. Mas, como ele...

Entre a morte e a ressurreição - Parte II

. Padre Elílio de Faria Matos Júnior PARTE II 2. A MORTE E A RESSURREIÇÃO Depois desta breve introdução, é hora de irmos ao tema: “Entre a morte e a ressurreição”, que, como dissemos, tratará da relação existente entre uma coisa e outra na visão teológica de Ratzinger. Antes do mais, cumpre notar que houve uma mudança de direcionamento no pensamento de Ratzinger, mudança essa confessada por ele mesmo no prólogo de sua Escatología : Faz exatamente vinte anos que ensinei pela primeira vez Escatologia no ciclo de minhas aulas. Desde então tive de ocupar-me periodicamente das questões que a disciplina levanta. A escatologia é juntamente com a eclesiologia o tratado que mais vezes expliquei e o primeiro que me atrevo a oferecer ao público na forma mesma de tratado. Com esta matéria ocorreu-me algo singular. Atrevi-me começar com as teses – raras ainda naquele tempo – que acabaram por impor-se hoje quase sem exceção no campo católico. Isto é, o que tentei foi elaborar uma escatolo...