Pular para o conteúdo principal

Saber técnico, saber ético e saber metafísico

A vida humana se articula em ao menos três grandes formas de saber: o saber técnico, o saber ético e o saber metafísico. Cada uma dessas dimensões corresponde a um modo fundamental de nossa presença no real e exprime uma potência própria do espírito. O saber técnico está ligado ao fazer; o saber ético, ao agir; e o saber metafísico, ao contemplar. Nessa tríplice estrutura, o homem se mostra não apenas como ser que opera, mas como ser que escolhe e como ser que admira.

Pelo fazer, entramos em relação com os objetos do mundo. Manipulamos a matéria, organizamos meios, produzimos instrumentos, transformamos a natureza e damos forma à cultura. O saber técnico é indispensável à vida humana, pois por ele construímos casas, desenvolvemos a ciência, curamos doenças, organizamos cidades e multiplicamos as possibilidades de ação. Trata-se do domínio da eficácia, da produção e da intervenção sobre o real.

Entretanto, o homem não vive apenas de meios. O simples saber fazer algo não responde, por si só, à questão decisiva sobre o que vale a pena fazer. É aqui que emerge o saber ético, ligado ao agir livre e à autoconstrução da pessoa. Se o fazer transforma o mundo, o agir transforma a nós mesmos. Cada escolha concreta encarna uma certa ideia do bem e imprime forma ao caráter. A vida moral é, portanto, a lenta edificação de si na direção da excelência humana.

Por isso, o saber ético é o horizonte da verdadeira realização. Ele orienta a liberdade para fins dignos do humano e conduz ao florescimento integral da pessoa, aquilo que Aristóteles chamou de eudaimonia, a vida plenamente lograda. Todos desejamos uma existência bem-sucedida, não apenas no sentido externo do êxito, mas na profundidade de uma vida boa, justa, sábia e espiritualmente fecunda.

Mas ainda há uma terceira dimensão, sem a qual o humano permanece incompleto: o contemplar. O saber metafísico nasce do espanto diante do ser. Não visa fabricar nem decidir imediatamente, mas ver, acolher, admirar e penetrar intelectualmente a inteligibilidade do real. Pela contemplação, recebemos do ser a sua luz; maravilhamo-nos com o dom da existência; reconhecemos a beleza silenciosa de tudo o que é. O espírito humano não se satisfaz apenas com o útil nem apenas com o bom: ele aspira também ao verdadeiro em sua radicalidade última.

É nesse horizonte que a metafísica se impõe como vocação ineludível do espírito. Todo ser humano, em algum momento, pergunta pela razão última das coisas, pelo fundamento do existir, pelo sentido do todo. Mesmo Immanuel Kant, crítico da metafísica dogmática, reconhecia no homem uma disposição metafísica inevitável. Há em nós uma sede profunda pelo absoluto, uma abertura interior ao mistério do ser.

Na contemplação metafísica, o pensamento ascende do ente ao fundamento, do contingente ao necessário, do múltiplo ao uno, até reconhecer, de modo eminente, aquele que é o Ser absoluto, fonte e razão de tudo o que existe. Aqui o homem não domina, mas se maravilha; não produz, mas recebe; não calcula, mas reverencia intelectualmente.

A modernidade, contudo, privilegiou de modo crescente o saber técnico. O fazer tornou-se critério supremo de racionalidade, e a eficácia passou a medir o valor do conhecimento. Com isso, o agir ético e o contemplar metafísico foram frequentemente relegados ao segundo plano. Ganhamos poder sobre o mundo, mas nem sempre crescemos em sabedoria sobre nós mesmos ou em abertura ao fundamento último do real.

Por isso, torna-se urgente recuperar a unidade dessas três dimensões. O fazer é necessário, mas precisa ser orientado pelo agir ético e iluminado pela contemplação metafísica. Para que o homem seja plenamente homem, não deve menosprezar nem a ética nem a metafísica. Sem o bem, a técnica perde direção; sem a contemplação, a vida perde profundidade. O humano floresce verdadeiramente quando sabe fazer, sabe agir e sabe contemplar.








Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Kurt Gödel, a matemática, a filosofia e Deus

  O grande lógico e matemático Gödel ao lado de Einstein Kurt Gödel tinha um profundo interesse na relação entre Deus e a matemática, e sua visão sobre isso pode ser entendida em três aspectos principais: 1. Gödel e a matemática: o platonismo Gödel acreditava que a matemática não era apenas um conjunto de convenções humanas, mas sim a descoberta de uma realidade objetiva. Ele defendia uma visão platonista, segundo a qual os objetos matemáticos (números, conjuntos, funções, etc.) têm uma existência independente da mente humana. Ligação com Deus Se a matemática é uma realidade objetiva e imutável, a questão se torna: de onde vem essa realidade? Gödel acreditava que a existência dessa estrutura matemática indicava uma ordem racional no universo, o que, para ele, era um indício de um princípio divino. 2. O argumento ontológico de Gödel para a existência de Deus Além de sua visão matemática, Gödel elaborou uma versão formal do argumento ontológico para provar a existência de Deus. Esse ...

Deus é Trindade: uma abordagem filosófico-teológica

I. A questão terminológica: hypóstasis , persona e subsistência A afirmação cristã de que Deus é Trindade tem sido sistematicamente mal compreendida — tanto por seus críticos quanto, por vezes, por seus próprios professores — em razão de uma imprecisão no uso do conceito de pessoa. Quando os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381) definiram a fé trinitária, recorreram ao vocábulo grego hypóstasis para designar aquilo que distingue o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Este termo, traduzido para o latim como persona e daí para as línguas modernas como “pessoa”, carrega um sentido técnico preciso que não deve ser confundido com o uso corrente do vocábulo: hypóstasis significa subsistência, isto é, aquilo que existe em si e por si, de modo estável e permanente, como modo real de ser de uma natureza. Dizer, portanto, que em Deus há três pessoas não equivale a afirmar que há três indivíduos distintos, três centros de consciência separados ou três divindades justapostas — o que seria...

Jesus de Nazaré: manifestação da Beleza entre nós

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Jesus de Nazaré, afirma a fé católica, é o Verbo de Deus encarnado[1]. A segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana do seio virginal de Maria Santíssima sob a ação do Espírito Santo, de modo que a humanidade do Filho de Deus tornou-se o sacramento por excelência do Deus vivo e da Beleza infinita entre nós. Jesus é a manifestação definitiva de Deus na história. Os primeiros concílios da Igreja definiram, diante de interpretações errôneas do mistério de Jesus, o realismo da encarnação do Verbo divino: Jesus possui duas naturezas distintas, a divina e a humana, unidas sem confusão e sem divisão na única pessoa do Verbo eterno[2]. Ele, e somente ele, revela Deus ao homem e o homem a Deus. "Por isso, nele o cristianismo e a Igreja têm não só sua origem, mas também seu centro e fundamento permanentes: 'ninguém pode colocar outro fundamento' (1Cor 3,11; cf. Mc 12,10s)."[3] O evento Jesus Cristo, com efeito, situa-s...