Pular para o conteúdo principal

A luz do Ser e a dinâmica do espírito: para uma leitura do Tomismo Transcendental

Joseph Maréchal foi uma grande fonte de Lima Vaz 

1. Introdução

No interior da tradição filosófica cristã, o tomismo se estabeleceu como uma das arquiteturas mais robustas do pensamento ocidental sobre o ser, o conhecimento e Deus. Contudo, diante das críticas modernas — especialmente o giro kantiano —, tornou-se necessário reencontrar a metafísica do ser à luz das exigências transcendentalmente fundadas do sujeito. É nesse contexto que surge o tomismo transcendental, cuja proposta central é conjugar a metafísica realista de Tomás de Aquino com a autocompreensão moderna da subjetividade.


2. O espírito como estrutura dinâmica: além do formalismo kantiano

Para Joseph Maréchal, o espírito humano não é apenas um receptáculo de categorias a priori formais, como pensava Kant, mas um impulso dinâmico em direção ao ser. A inteligência é movida por uma exigência estrutural de conhecer não apenas o fenômeno, mas o ser enquanto tal — e, ao fazê-lo, ela já se encontra referida, ainda que de modo implícito, ao Ser absoluto.

Nesse sentido, o a priori do espírito, longe de reduzir-se a um conjunto de formas lógicas ou reguladoras, é constituído por aquilo que Maréchal chama de “luz do ser”, uma estrutura formal que não determina previamente o conteúdo da experiência, mas permite que todo ente finito se apresente como inteligível enquanto ser. Assim, o espírito humano é uma potência de conhecer e amar que sempre ultrapassa o dado: é “potência dinâmica de infinito”.


3. O ser como horizonte: a leitura de Lima Vaz

Henrique Cláudio de Lima Vaz, influenciado por Maréchal e por autores como Rahner e Blondel, vê na estrutura do espírito uma abertura constitutiva ao ser. Para ele, a inteligência humana é marcada por uma intencionalidade ontológica, isto é, ela tende essencialmente ao ser e encontra no ser a sua razão formal.

O a priori da inteligência, então, não é apenas lógico, mas ontológico-transcendental: ele consiste na presença do ser no espírito, não como conceito ou conteúdo determinado, mas como luz formal que possibilita toda manifestação do ente. E como esse ser é finito no ente conhecido, o espírito reconhece, nesse próprio conhecimento, o ultrapassamento do finito. É nesse movimento que se constitui o dinamismo da razão e da liberdade humanas, cujo “Donde” e “Aonde” só pode ser o Ser realíssimo — Deus.


4. O dinamismo da inteligência e da vontade

A partir disso, o espírito humano não repousa em nenhum objeto finito. Qualquer realização do conhecimento e do amor no mundo finito é apenas uma realização parcial da amplitude da potência espiritual. Isso equivale a dizer que, pela própria estrutura de sua atividade, o homem é sempre remetido a um Transcendente real, que é a fonte e termo último do seu dinamismo.

Essa é a essência da via transcendental para Deus em Maréchal: não como inferência, mas como condição de possibilidade do próprio dinamismo do espírito. O ser absoluto é pressuposto pelo movimento da inteligência e da vontade, não como uma construção hipotética, mas como o fundamento ontológico necessário do próprio a priori do espírito.


5. Considerações finais

Essa concepção supera tanto o formalismo kantiano quanto o dogmatismo racionalista, mantendo o realismo metafísico tomista e integrando-lhe as exigências modernas da subjetividade. O ser conhecido e amado na experiência é finito; mas o conhecer e o amar, enquanto fundados na luz do ser, são infinitamente abertos. O espírito humano, nesse horizonte, não se explica sem Deus — não apenas como conclusão lógica, mas como pressuposto transcendental da própria estrutura do espírito.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Des"-sacerdotalizar o ministério presbiteral - Uma resenha

COSTADOAT, Jorge. «Desacerdotalizar» el ministerio presbiteral: un horizonte para la formación de los seminaristas. Seminarios , Madrid, v. 67, n. 231, p. 249-267, 2022. DOI: 10.52039/seminarios.v67i231.1526. 1. Apresentação Jorge Costadoat é teólogo da Pontificia Universidad Católica de Chile. Neste artigo, ele parte da crise dos abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por clérigos para diagnosticar um problema de fundo: a progressiva "sacerdotalização" do ministério presbiteral. Sua proposta é repensar a formação dos seminaristas a partir de uma volta às origens do ministério ordenado. 2. Conceitos-chave Sacerdotalização. É o processo histórico pelo qual se passou a nomear os ministérios cristãos com vocabulário sacerdotal e a compreender seus titulares como sacerdotes em sentido cultual. Nesse sentido, o sacerdote é visto como mediador separado do povo, encarregado do sagrado. Desacerdotalização. É o movimento inverso proposto pelo autor. Não se trata de...

A Primeira Via de Santo Tomás

A primeira via de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus é a chamada prova do motor imóvel, que parte do movimento observado no mundo para concluir a existência de um Primeiro Motor imóvel, identificado como Deus. Ela é formulada assim: 1. Há movimento no mundo. 2. Tudo o que se move é movido por outro. 3. Não se pode seguir ao infinito na série de motores (causas de movimento). 4. Logo, é necessário chegar a um Primeiro Motor imóvel, que move sem ser movido. 5. Esse Primeiro Motor é o que todos chamam de Deus. Essa prova se fundamenta em princípios metafísicos clássicos, especialmente da tradição aristotélica, como: • A distinção entre ato e potência. • O princípio de que o que está em potência só passa ao ato por algo que já está em ato. • A impossibilidade de regressão ao infinito em causas atuais e simultâneas. Agora, sobre a validade perene dessa via, podemos considerar a questão sob dois ângulos: 1. Validade ontológica e metafísica: sim, perene A estrutura m...

SÍNTESE DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

1. O QUE É A DOUTRINA SOCIAL E COMO ELA FUNCIONA A Doutrina Social da Igreja não é um terceiro sistema entre capitalismo e socialismo, nem um receituário técnico de política econômica. É teologia moral aplicada à vida social: a leitura das transformações históricas à luz do Evangelho, com o auxílio da razão e das ciências humanas. Daí seu método clássico, consagrado pelo Concílio Vaticano II mas já operante desde Leão XIII: ver, julgar e agir. Ver, com competência humana, o que de fato acontece; julgar, com o critério evangélico, o que humaniza e o que desumaniza; agir, com responsabilidade histórica concreta. Esse método explica por que a Doutrina Social é ao mesmo tempo permanente nos princípios e mutável nas aplicações. Os enunciados fundamentais não mudam; os diagnósticos acompanham a história. 2. A FASE FUNDACIONAL: DA QUESTÃO OPERÁRIA À QUESTÃO DAS ESTRUTURAS Leão XIII, na Rerum Novarum de 1891, inaugura o percurso. Põe no centro a dignidade do trabalho e do trabalhador, o salár...