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A vontade deficiente e ativa. O mundo humano e o demoníaco


O mal aparece na nossa vida não apenas como ausência simples ou passiva do bem, mas também como um poder – uma eficiência – que corrompe, causando ativamente a privação do bem e, com ela, a dor e o sofrimento. Não que o mal em si mesmo possa ser algo subsistente. Agostinho e toda a tradição filosófico-teológica cristã sempre mostraram que o mal é ausência de bem. No entanto, a vontade criada, que em si mesma é boa, pode atuar de modo deficiente e, assim, promover ativamente o mal ou a desordem. Sendo Deus o Bem subsistente, nossa salvação consistirá sempre em nos abrir à sua presença e atuação. Diante de Deus, o mistério do mal não tem poder.

A vontade deficiente causadora do mal pode ser humana ou não humana. Como humanos, sabemos bem como uma vontade humana deficiente (orgulhosa, soberba, fechada ao Bem, não amorosa) pode causar grandes males. A tradição cristã afirma a existência de anjos e demônios. Trata-se de criaturas espirituais não humanas, dotadas de uma capacidade intelectual superior. Diante da escolha decisiva a que foram submetidos, os anjos optaram por Deus e os demônios, contra. O que faz do anjo uma criatura boa é a sua vontade boa, que aderiu a Deus e o recebeu como Dom. O que faz do demônio uma criatura má é a sua vontade má, que recusou a Deus. Veja-se que o demônio é uma criatura de Deus, em si mesma boa, mas que se tornou má pela vontade má ou deficiente. Ontologicamente, o demônio é bom. Moralmente, tornou-se mau pelo orgulho e pela soberba. O pecado de um demônio, que não têm inclinação sensível por ser puro espírito, não poderia estar relacionado à fraqueza, como em geral acontece com o homem, mas, sim, à plena deliberação: a recusa clarividente do Dom divino por uma vontade soberba e orgulhosa.

A tradição fala de inúmeros demônios e do seu líder Satanás ou Diabo. As Escrituras não oferecem muitos dados. O Antigo Testamento não tem demonologia desenvolvida, nem mesmo conhece propriamente o conceito de demônio. Às vezes os deuses falsos dos pagãos, dos quais também se diz que não existem ou que são mera aparência, são tidos como demônios. No livro de Jó, Satã aparece como figura literária que tem pleno acesso à coorte celeste, mas que mostra uma vontade má em relação aos homens. O Novo Testamento supõe um desenvolvimento da demonologia em Israel acontecido depois do exílio da Babilônia, sobretudo no período intertestamentário (Satanás ou Diabo passa a ser visto como o arquidemônio ou o principal inimigo de Deus), e dá destaque à atuação dos demônios, mas não entra em questões aprofundadas sobre sua origem, natureza e queda. Jesus é apresentado em luta contra os demônios depois de ter vencido as tentações do Diabo. Alguns teólogos atualmente, com boas razões, pensam que a existência dos demônios não faz parte intrínseca da Revelação, mas se deve a uma cultura que ficou no passado. No entanto, a Igreja, ainda hoje, sustenta a doutrina tradicional.

Na arte e na religiosidade popular, Satanás e os demônios têm sido imaginados e representados de diversos modos. A imaginação é rica, exuberante e, muitas vezes, objetivamente falsa. O ensinamento oficial da Igreja, por sua vez, é sóbrio sobre o tema. Os textos do magistério eclesial falam de potências espirituais não humanas, criaturas decaídas, contrárias a Deus e à salvação dos homens, mas os pastores e os mestres cristãos sempre convidaram a todos a colocar a atenção e o coração em Deus, de cuja providência nada fica fora, nem mesmo a ação demoníaca.

Não se quer negar a priori a ação nefasta dos demônios no mundo, mas hoje se sabe que muito do que se atribuía a tal ação, como doenças e, sem dúvida, muitos relatos de obsessões e possessões, são casos explicáveis naturalmente, com os recursos modernos da psicologia, da psiquiatria e da parapsicologia, ramo de saber que procura afirmar-se e oferece interessantes explicações com base em potências extraordinárias da alma humana. Tudo o que pode ser explicado naturalmente, sem recorrer a forças de outro mundo, deve ser assim explicado. É preciso sobriedade e prudência. Como quer que seja, grandes santos falam de suas próprias lutas espirituais contra poderes demoníacos. 

A fé cristã, embora reconheça a ação do mal, confia em Deus e descansa o coração nele. Como reconhecia um antigo Santo Padre, por causa da vitória de Jesus o demônio é um cão acorrentado — pode ladrar muito, mas só morde a quem se lhe chega perto.

Comentários

  1. Qual a diferença entre dizer que o "mal não é" e o "mal não existe"?

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    Respostas
    1. O mal não é um ente subsistente, mas é uma carência de um ser devido, que é uma desordem. Então, o mal existe como desordem na ordem do ser.

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  2. O mal não é um ente subsistente, mas é uma carência de um ser devido, que é uma desordem. Então, o mal existe como desordem na ordem do ser.

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