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Arqueologia bíblica

Elílio de Faria Matos Júnior

Estudos de arqueologia bíblica mais recentes mostram:

- Não terá havido um êxodo do Egito de 600 mil homens hebreus com suas famílias - um total de 2 milhões de pessoas. Um número tão elevado de pessoas não se conteria no deserto do Sinai e sua saída causaria uma verdadeira convulsão social no Egito. Ademais, não consta nenhum registro histórico de uma fuga assim. Ainda: o êxodo, se tivesse acontecido, ter-se-ia dado no século XII/XIII a.C.; mas os relatos só foram colocados por escrito bem mais tarde, no séc. IV/V a.C. Deve-se observar ainda que há várias tradições que se amalgamaram na redação final do texto bíblico: sobre o travessia das águas, por exemplo, há um relato que fala da abertura miraculosa do Mar Vermelho e outra que fala de uma travessia menos portentosa, favorecida pelo vento, no Mar dos Juncos.

- A conquista violenta da terra de Canaã com a destruição de cidades seria uma lenda sem fundamento histórico. Por ocasião da presunta chegada dos hebreus em Canaã sob Josué, as muralhas de Jericó já estavam destruídas há séculos - isso revela a arqueologia. Não houve o cerco de Jericó nem a conquista violenta da terra.

- Os protoisraelitas teriam sido a população que subiu para as montanhas da Palestina depois da grande desestabilização das Cidades-Estado de Canaã por volta do século XII a.C. em consequência da invasão de “Povos do Mar”. Essa população ter-se-ia reunido 12 em regiões distintas, o que foi a primeira raiz do que viria a se denominar as 12 tribos de Israel. Aí nas alturas, desenvolveu-se a técnica de furar cisternas e de as calafetar para recolher e conservar as águas das chuvas.

- Os reinos do Norte e do Sul teriam nascido separados, tendo sido o do Norte bem mais próspero. O reino do Sul, Judá, teria sido muito precário sob Davi. Jerusalém à época era uma aldeia - mostra a arqueologia. O Templo de Salomão teria sido bem modesto e teria passado por sucessivas reformas.

- Com a invasão da Assíria sobre Israel (reino do Norte) em 722 a.C., muitos israelitas (nortistas) foram para o sul, para o Reino de Judá. As tradições dos reinos de Israel e Judá se fundem. Aqui acontece a morte de Israel como denominação geográfica (o reino de Israel foi destruído pela Assíria) e se dá o nascimento de Israel como povo, etnia, tradição.

- A tradição do êxodo teria ido do norte para o sul e se tornado uma tradição comum, o que levaria aos relatos escritos da Bíblia mais tarde. É possível que um pequeno grupo de escravos tenha saído do Egito e tenha se reunido com a população que fugiu para as montanhas após a referida desestabilização das Cidades-Estado em Canaã. Entretanto, a expressão “sair do Egito” podia significar, não uma saída geográfica, mas a libertação que a população que subiu as montanhas teria conquistado, já que as Cidades-Estado estavam sob a denominação egípcia. A redação do Pentateuco, no qual temos o relato do êxodo, acontece a partir do Exílio da Babilônia (587 a.C.).

- Em consequência, as estórias do Pentateuco relativas aos Patriarcas, ao Êxodo, à conquista da terra de Canaã e aos começos do Reino sob Saul, Davi e Salomão são projeções gloriosas no passado de um povo que buscou construir sua identidade a partir de muitas labutas. São relatos que procuram dar uma origem e uma identidade comum para os descendentes das populações que tinham subido para as montanhas para ganhar a vida e que depois viria a dominar também a planície.

- Interessante notar que o Pentateuco hora nenhuma atribui as origens de Israel a estórias de deuses (no plural). Os israelitas nunca se consideraram descendentes de divindades, como era comum entre outros povos. Os antepassados de Israel que aparecem nos relatos bíblicos são sempre humanos, com graves defeitos até. Israel colocou na sua origem a relação com um só Deus, criador de todas as coisas. Tudo mais foi humano e dependeu da relação de humanos com o único Deus.

- Por fim, há quem levante a questão: mas esses relatos bíblicos são lendas? Eu responderia: Deus não poderia inspirar lendas? É certo que os relatos, em grande medida, são projeções da fé do povo de Israel. Algum fundamento histórico misturado com as projeções e transmitido via oral certamente há. Mas o importante é ver a fé desse povo que reconheceu um só Deus verdadeiro e dispôs todas essas estórias nas quais ainda hoje podemos nos inspirar para professar fundamentalmente a mesma fé que deu sentido à vida deles.

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