domingo, 12 de junho de 2016

O dilúvio universal existiu?

Neste sábado (11/06), no curso bíblico que estou ministrando em Vargem Bonita, estudamos os capítulos de 6 a 8 do livro do Gênesis, que tratam do dilúvio e da arca de Noé. Vimos que existem no texto duas tradições entremeadas, a tradição javista e a sacerdotal. Segundo a tradição javista, o dilúvio teria durado 40 dias e Noé, depois de cessadas as chuvas, teria ficado dentro da arca mais 21 dias, porque não havia ainda terra seca. Tudo teria durado, então, 61 dias. Segundo a tradição sacerdotal, ao invés, tudo teria durado 1 ano e 10 dias: o dilúvio teria começado quando Noé tinha 600 anos, dois meses e 17 dias e somente quando Noé tinha 601 anos, dois meses e 27 dias a terra seca teria aparecido.

Há outras discrepâncias ainda que o leitor atento pode detectar. O que dificulta a análise  é o fato de as duas tradições estarem bem misturadas no texto. Vê-se que o redator final juntou num só texto duas tradições diversas sobre o dilúvio.

Alguém pode perguntar: o dilúvio aconteceu mesmo? Deve-se dizer que um dilúvio universal não aconteceu de fato. Os autores bíblicos certamente se valeram de relatos mesopotâmicos sobre um suposto dilúvio que teria inundado toda a terra (mas ninguém na antiguidade conhecia as dimensões reais do planeta). Existia uma versão babilônica que falava de deuses que queriam destruir a humanidade com água e que teriam escolhido um homem para se salvar através de uma arca. Esses relatos podem ter uma base histórica a partir de uma grande inundação que terá assolado a Mesopotâmia. A Bíblia, porém, ao se valer dessas tradições pagãs, filtrou-as, eliminando o seu politeísmo e afirmando o monoteísmo.

O texto bíblico sobre o dilúvio é uma lenda? Sim, certamente. Mas Deus pode transmitir uma mensagem através de uma lenda. É a mensagem religiosa transmitida que interessa à nossa salvação. No caso do dilúvio, aprendemos que o acumular-se de pecados no mundo pode levá-lo a uma grande catástrofe. Não é isso que sempre temos visto nas grandes crises da história da humanidade?

Como quer que seja, Deus sempre acha um meio para a humanidade recomeçar. Não é isso que vemos na figura legendária de Noé, que se salva juntamente com a família e os animais? Deus não faz aliança com ele para um novo começo?

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sobre o livro do Gênesis

O livro do Gênesis não foi escrito de uma só vez nem por um único autor. Nele confluem tradições diversas, de diversos períodos da história do povo de Deus. O redator final costurou essas tradições, procurando dar-lhes uma certa ordem, que é a que podemos encontrar lendo o livro tal como se encontra atualmente nas nossas traduções da Bíblia. A redação final aconteceu no séc. V a.C., período em que a experiência do exílio da Babilônia (587-530 a.C.) era muito marcante na consciência do povo.

Os primeiros dois capítulos, por exemplo, recolhem duas tradições distintas e contam, de maneira diversa, a obra da criação de Deus. Quando lemos esses dois capítulos, temos de ter presente que os autores não queriam nem podiam oferecer uma descrição histórica ou fotográfica de como as coisas realmente aconteceram. Ninguém viu a criação sair das mãos de Deus e, por isso, ninguém podia nem pode retratar esse evento transcendente. A Bíblia, portanto, não oferece nenhum relato que seja fruto de uma testemunha ocular dos inícios do mundo e da humanidade. Ela, no entanto, com a convicção de que tudo saiu das mãos de Deus e por sua livre vontade, procura, de algum modo, descrever o indescritível. E o faz recorrendo a imagens.

O primeiro relato da criação (Gn 1-2,4a) foi escrito por sacerdotes quando estavam exilados na Babilônia. Apresenta a obra da criação no quadro de uma semana – por seis dias Deus trabalha e, no sétimo, descansa. Trata-se de um texto bem estruturado e dotado de repetições solenes (“Deus disse”, “houve uma tarde e uma manhã”, “primeiro, segundo, terceiro... dia”, etc). Nesse relato, Deus não aparece de modo algum sob forma que o assemelhe ao homem, mas é totalmente transcendente, e executa a sua obra pelo poder de sua palavra. Elohim é como Deus vem chamado.

Já o segundo relato (Gn 2,4b-25) chama a Deus de Iahweh e tem como centro a criação da humanidade. Deus aí aparece mais próximo do mundo humano, quase como um homem – é retratado como um oleiro que toma a argila para criar o homem e os animais, um jardineiro que planta um jardim para fazer aí habitar o homem, uma espécie de anatomista que toma a costela do homem para, com ela, fazer a mulher. Esse segundo relato é mais antigo do que o primeiro. No seu início, a terra aparece árida e sem vegetação, ao contrário do primeiro relato, que fala de águas que cobriam o abismo.