Pular para o conteúdo principal

Sobre o(s) relato(s) da criação. Livro do Gênesis


O livro do Gênesis não foi escrito de uma só vez nem por um único autor. Nele confluem tradições diversas, de diversos períodos da história do povo de Deus. O redator final costurou essas tradições, procurando dar-lhes uma certa ordem, que é a que podemos encontrar lendo o livro tal como se encontra atualmente nas nossas traduções da Bíblia. A redação final aconteceu no séc. V a.C., período em que a experiência do exílio da Babilônia (587-530 a.C.) era muito marcante na consciência do povo.

Os primeiros dois capítulos, por exemplo, recolhem duas tradições distintas e contam, de maneira diversa, a obra da criação de Deus. Quando lemos esses dois capítulos, temos de ter presente que os autores não podiam oferecer uma descrição fotográfica de como as coisas realmente aconteceram nos primórdios do universo e da humanidade. Ninguém viu a criação sair das mãos de Deus e, por isso, ninguém podia nem pode retratar esse evento transcendente. A Bíblia, portanto, não oferece nenhum relato que seja fruto de uma testemunha ocular dos inícios do mundo e da humanidade. Ela, no entanto, com a convicção de que tudo saiu das mãos de Deus e por sua livre vontade, procura, de algum modo, descrever o indescritível de acordo com as possibilidades culturais dos seus autores humanos. Cada cultura e cada época fazem uma imagem de Deus e de seus mistérios. Essas imagens nunca devem ser absolutizadas, pois "Deus é sempre maior" (S. Inácio de Loyola).

O primeiro relato da criação (Gn 1-2,4a) foi provavelmente escrito por sacerdotes quando estavam exilados na Babilônia. O início é assinalado pela abundância de águas, já que os exilados estavam em contato com a terra dos dos grandes rios - o Tigre e o Eufrates. Apresenta-se a obra da criação no quadro de uma semana – por seis dias Deus trabalha e, no sétimo, descansa. Trata-se de um texto bem estruturado e dotado de repetições solenes (“Deus disse”, “houve uma tarde e uma manhã”, “primeiro, segundo, terceiro... dia”, etc). Nesse relato, Deus não aparece sob forma que o assemelhe ao homem, mas é totalmente transcendente, e executa a sua obra pelo poder de sua palavra. Elohim é como Deus vem chamado. Estamos diante da tradição sacerdotal.

Já o segundo relato (Gn 2,4b-25) chama a Deus de Iahweh (Javé) e tem como centro a criação da humanidade. Deus aí aparece mais próximo do mundo humano, quase como um homem – é retratado como um oleiro que toma a argila para criar o homem e os animais, um jardineiro que planta um jardim para fazer aí habitar o homem, uma espécie de anatomista que toma a costela do homem para, com ela, fazer a mulher. Esse segundo relato é mais antigo do que o primeiro. No seu início, a terra aparece árida e sem vegetação, ao contrário do primeiro relato, que fala de águas que cobriam o abismo. Estamos diante da tradição javista.

O importante para a Bíblia é que a verdade religiosa e metafísica (que a ciência moderna não pode negar) de que o universo inteiro depende de Deus ou foi criado por Deus está sendo expressa. O meio de expressão é a linguagem mítica, mais antropomórfica na tradição javista, menos antropomórfica na tradição sacerdotal. Ora, a linguagem mítica não compromete a verdade da criação, mas aponta para ela e é o seu símbolo. 

Comentários

  1. Muito elucidatuvo o texto. Traz mais para a realidade, explicando as possíveis origens do luvro da Genesis. Parabéns!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Criação "ex nihilo"

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Em Deus, e somente em Deus, essência e existência identificam-se. Deus é o puro ato de existir ( Ipsum Esse ), sem sombra alguma de potencialidade. Ele é a plenitude do ser. Nele, todas as perfeições que convém ao ser, como a unidade, a verdade, a bondade, a beleza, a inteligência, a vontade, identificam-se com sua essência, de tal modo que podemos dizer: Deus é a Unidade mesma, a Verdade mesma, a Bondade mesma, a Beleza mesma... Tudo isso leva-nos a dizer que, fora de Deus, não há existência necessária. Não podemos dizer que fora de Deus exista um ser tal que sua essência coincida com sua existência, pois, assim, estaríamos afirmando um outro absoluto, o que é logicamente impossível. Pela reflexão, pois, podemos afirmar que em tudo que não é Deus há composição real de essência (o que alguma coisa é) e existência (aquilo pelo qual alguma coisa é). A essência do universo criado não implica sua existência, já que, se assim fosse, o universo, contingen...

Se Deus existe, por que o mal?

O artigo ( leia-o aqui ) Si Dieu existe, pourquoi le mal ?,  de Ghislain-Marie Grange, analisa o problema do mal a partir da teologia cristã, com ênfase na abordagem de santo Tomás de Aquino. O autor explora as diversas tentativas de responder à questão do mal, contrastando as explicações filosóficas e teológicas ao longo da história e destacando a visão tomista, que considera o mal uma privação de bem, permitido por Deus dentro da ordem da criação. ⸻ 1. A questão do mal na tradição cristã A presença do mal no mundo é frequentemente usada como argumento contra a existência de um Deus onipotente e benevolente. A tradição cristã tem abordado essa questão de diferentes formas, tentando reconciliar a realidade do mal com a bondade e a onipotência divinas. 1.1. A tentativa de justificar Deus Desde a Escritura, a teologia cristã busca explicar que Deus não é o autor do mal, mas que ele é uma consequência da liberdade das criaturas. No relato da queda do homem (Gn 3), o pecado de Adão e E...

Convite ao eclesiocentrismo

O Cardeal Giacomo Biffi, arcebispo emérito de Bologna, faz um convite quase insuportável aos ouvidos que se consideram avançados e atualizados em matéria teológica: trata-se de um convite ao eclesiocentrismo. O quê? Isso mesmo. Um convite ao eclesiocentrismo. É o que podemos ler, estudar e meditar em seu livro sobre eclesiologia - La Sposa chiacchierata: invito all’ecclesiocentrismo -, que ganhou uma tradução portuguesa sob o título Para amar a Igreja . Belo Horizonte: Centro de Cultura e Formação Cristã da Arquidiocese de Belém do Pará / Editora O Lutador, 2009. . O motivo que leva o arcebispo e cardeal da Igreja Giacomo Biffi a fazer um convite assim tão «desatual» é o seu amor pela verdade revelada em Cristo. A teologia para Biffi não se deve ocupar com discursos divagantes sobre hipóteses humanas, não deve fazer o jogo do «politicamente correto», mas deve, isto sim, contemplar a « res », isto é, a realidade que corresponde ao desígnio do Pai, a sua verdade. E com relação à ver...