Pular para o conteúdo principal

A Palavra de Deus é uma só

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A Palavra de Deus, meu irmão e irmã, é uma só, e foi gerada pelo Pai antes da fundação do mundo, isto é, desde toda eternidade. Esta Palavra é, portanto, eterna e incriada. Ela é a sabedoria de Deus. São João chega a dizer: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Vejamos, pois, a importância e a dignidade da Palavra: “A Palavra era Deus”. Nós, seres humanos, dizemos muitas palavras, porque somos limitados e não conseguimos dizer tudo por meio de uma só palavra. Mas Deus é diferente. Ele diz tudo por meio de uma só Palavra, gerada desde toda a eternidade. A Palavra é seu Filho amado.

E essa Palavra é pronunciada pelo Pai no silêncio de sua riquíssima vida interior, de modo que, para ouvi-la, devemos silenciar as muitas palavras que agitam e inquietam o nosso coração. São João da Cruz, grande místico da Igreja, nos ensina que “o Pai  diz  uma  Palavra  que  é  seu  Verbo  e  é  seu  Filho.  Ele  a  pronunciou  num  eterno  silêncio  e  é  nesse  silêncio  que  a  alma  o  ouve”. 

Nada mais recomendável para quem quer ouvir a Palavra de Deus e saborear as suas doçuras infinitas do que o silêncio do coração. Não se trata de um silêncio vazio. Trata-se, antes, de afungentar da alma as muitas palavras que dizem pouco ou nada dizem de proveito para o nosso crescimento e ouvir a única Palavra que preenche o nosso ser. Silenciar é ouvir o que só Deus, e ninguém mais, pode nos dizer.
Desse modo, é indispensável para a vida cristã a oração que faz a alma mergulhar no silêncio de Deus. A Bíblia, cujo mês celebramos, não pode ser entendida e saboreada sem a oração que nos dispõe para ouvir a Palavra divina.

A Palavra de Deus é, em primeiro lugar, o Filho eterno do Pai. E São João nos garante que “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Eis, pois, que a Palavra se fez gente como a gente. Por amor, veio ensinar-nos as coisas escondidas no seio do Pai antes de todos os séculos. Veio dar-nos a vida verdadeira: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (Jo 3,36). 

Quem quer que queira aproximar-se de Deus e viver a vida divina, não procure senão ouvir a voz de seu Filho, que é a sua única Palavra: “Porque em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (...) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (São João da Cruz).

Nós cristãos devemos, desse modo, ouvir a única Palavra de Deus. Não nos satifazem outras palavras, por mais interessantes que sejam. E é preciso, repito, silenciar para ouvir. Deus se manifesta, como ao profeta Elias, na brisa suave (cf. 1Rs 19,11-13). E ouvir não é só escutar. Ouvir é fazer da Palavra de Deus a “lâmpada para meus pés e a luz para meus caminhos” (Sl 119,105). 

É claro que a Palavra única do Pai faz-se presente, de modo especial, na Bíblia, razão pela qual nós tanto veneramos o Livro Sagrado. A Bíblia tem como centro a Palavra eterna ou o Filho de Deus, que veio visitar-nos da parte do Pai. O Antigo Testamento prepara essa visita, e o Novo Testamento dá testemunho qualificado do enviado de Deus. Nesse sentido, a Bíblia é fonte de espiritualidade e de comunhão com Deus. Através das muitas palavras da Bíblia, devemos encontrar a única Palavra do Pai. Daí a necessidade de “rezar a Bíblia”. Não podemos apenas estudá-la, mas devemos fazer o que se chama de “leitura orante da Bíblia”.

Uma última consideração: Assim como a única Palavra do Pai, que é seu Filho unigênito, está presente de uma maneira muito especial nas palavras da Bíblia, essa mesma Palavra faz-se presente na Tradição viva da Igreja. Aliás, entre a Bíblia e a Tradição da Igreja existem laços tão estreitos e fortes que uma não pode ser entendida sem a outra. A Tradição berçou a Bíblia e a fez nascer, e a Bíblia é autenticamente interpretada no seio da grande Tradição, que, em última análise, é assistida pelo Espírito de Deus. Assim, a única Palavra de Deus, saindo do seio do Pai, vem até nós no Filho encarnado, cuja voz continua ressoando nas palavras da Bíblia lida à luz da Tradição que começa com os apóstolos e deve prolongar-se pelos séculos dos séculos.

Comentários

  1. Como é extraordinariamente maravilhoso quando aprendemos a ouvir Deus.E é só verdadeiramente me interessando pelas pessoas,pelos apelos do proximo,silenciando interiormente, rezando a Biblia,que descobri esta maravilha.
    Voces,padres da Paroquia de Santa Rita, estao contribuindo, e muito, para este meu crescimento espiritual e de tantos outros da menbros da comunidade.Que Deus os mantenham firmes neste proposito de evangelizar atraves do conhecimento biblico
    Vera Mattoso

    ResponderExcluir
  2. "E é preciso, repito, silenciar para ouvir. Deus se manifesta, como ao profeta Elias, na brisa suave."

    Os barulhos do mundo, muitas vezes abafam o silêncio de Deus, por isso temos que estar atentos a ouvir Deus em meio a tantos ruídos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Des"-sacerdotalizar o ministério presbiteral - Uma resenha

COSTADOAT, Jorge. «Desacerdotalizar» el ministerio presbiteral: un horizonte para la formación de los seminaristas. Seminarios , Madrid, v. 67, n. 231, p. 249-267, 2022. DOI: 10.52039/seminarios.v67i231.1526. 1. Apresentação Jorge Costadoat é teólogo da Pontificia Universidad Católica de Chile. Neste artigo, ele parte da crise dos abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por clérigos para diagnosticar um problema de fundo: a progressiva "sacerdotalização" do ministério presbiteral. Sua proposta é repensar a formação dos seminaristas a partir de uma volta às origens do ministério ordenado. 2. Conceitos-chave Sacerdotalização. É o processo histórico pelo qual se passou a nomear os ministérios cristãos com vocabulário sacerdotal e a compreender seus titulares como sacerdotes em sentido cultual. Nesse sentido, o sacerdote é visto como mediador separado do povo, encarregado do sagrado. Desacerdotalização. É o movimento inverso proposto pelo autor. Não se trata de...

A autoridade papal fica de pé

O episódio ocorrido na noite de Natal deste ano na Basílica de São Pedro em Roma é, de certa forma, um símbolo dos tempos atuais. O Papa, Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, cai. A mitra, símbolo de sua autoridade, rola no chão. A férula, que representa a sua missão de pastor universal, é derrubada pelo homem moderno, desorientado, confuso e como que fora-de-si. Louca ou não, a jovem de 25 anos que provocou o incidente bem representa o mundo de hoje, que joga por terra a autoridade e as palavras do Romano Pontífice, que, na expressão da grande Santa Catarina de Siena, é «o doce Cristo na Terra». A jovem é louca? Não sei. Mas sei que o é, e muito, o mundo que rejeita Deus e o seu Cristo para abraçar o vazio e caminhar nas trevas. Bento XVI se ergue rápido e continua seu caminho. Celebra a Santa Missa, que é o que há de mais sublime sobre a face da Terra, rende o verdadeiro culto a Deus e conserva-se em seu lugar, como pastor colocado à frente do rebanho pelo Pastor Eterno, ...

Jesus de Nazaré: manifestação da Beleza entre nós

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Jesus de Nazaré, afirma a fé católica, é o Verbo de Deus encarnado[1]. A segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana do seio virginal de Maria Santíssima sob a ação do Espírito Santo, de modo que a humanidade do Filho de Deus tornou-se o sacramento por excelência do Deus vivo e da Beleza infinita entre nós. Jesus é a manifestação definitiva de Deus na história. Os primeiros concílios da Igreja definiram, diante de interpretações errôneas do mistério de Jesus, o realismo da encarnação do Verbo divino: Jesus possui duas naturezas distintas, a divina e a humana, unidas sem confusão e sem divisão na única pessoa do Verbo eterno[2]. Ele, e somente ele, revela Deus ao homem e o homem a Deus. "Por isso, nele o cristianismo e a Igreja têm não só sua origem, mas também seu centro e fundamento permanentes: 'ninguém pode colocar outro fundamento' (1Cor 3,11; cf. Mc 12,10s)."[3] O evento Jesus Cristo, com efeito, situa-s...