sábado, 21 de novembro de 2009

Liturgia deve ser mistagogia

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

Uma das constantes preocupações do Santo Padre Bento XVI diz respeito à liturgia. Ultimamente, ou desde a Reforma litúrgica de Paulo VI, como todos sabem, a Liturgia Romana tem sofrido duros golpes por parte de quem não lhe reconhece a dignidade devida. Muitos padres e comunidades acham que podem “fazer” sua própria liturgia, pois que acrescentam e tiram aqui e ali, tendo como único conselheiro e guia o próprio alvedrio ou o gosto pessoal, de modo a descaracterizar o que recebemos da Igreja e, em última análise, dos Apóstolos e do próprio Senhor.

Quem poderá negar que uma onda de atitudes e gestos estranhos invadiram a Liturgia Romana nos últimos anos? É o barulho ensurdecedor dos cantos e instrumentos musicais, as letras dos cantos que nada tem a ver com o senso litúrgico, o padre que se faz de showman, os “bom-dias” despropositados do padre e seu linguajar, muitas vezes, nada apropriado ao culto divino, a “bateção” de palmas do início ao fim da Missa, as danças descabidas, a invasão de procissões (é procissão disso, procissão daquilo...), as adulterações de orações e do sentido autêntico da celebração, etc. Santo Tomás de Aquino ensina que "incorre no vício da falsidade quem, da parte da Igreja, oferece o culto a Deus contrariamente à forma estabelecida pela autoridade divina da Igreja e seu costume" (Summa theologiae II-II, q. 93, a.1).

O Santo Padre, na Carta aos Bispos que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum, tocou na questão dos celebrantes que, não compreendendo bem a Reforma litúrgica, se sentem obrigados à criatividade, e disse que tal mal entendido “levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável” (Carta aos Bispos). Atingimos, na expressão do próprio Papa, o “limite do suportável”. O Papa não podia ser mais claro em sua desaprovação aos abusos litúrgicos.

O mais preocupante diz respeito à conservação e transmissão da autêntica fé católica e ao vigor espiritual dos fiéis. Todos sabemos, e a tradição da Igreja nos dá prova disso, que “legem credendi lex statuit orandi”. A fé se alimenta da liturgia bem celebrada. Não é à toa que as grandes reformas ao longo da história da Igreja tiveram como eixo e centro dinamizador a liturgia. A propósito, assim se expressou João Paulo II: “A tradição e a experiência milenar da Igreja nos mostram que é a Fé, celebrada e vivida na liturgia, que alimenta e fortifica a comunidade dos discípulos do Senhor" (Discurso,11 de maio de 1991).

Se a vida espiritual dos católicos hoje precisa de novo vigor e de uma fé mais profunda, será que não devemos voltar a celebrar com mais dignidade os mistérios da nossa salvação? Uma orientação que vem do Santo Padre Bento XVI, tanto de suas palavras como de seu exemplo prático, ensina-nos a preservar o sentido do mistério em nossas celebrações. Celebrar a liturgia deve constituir uma verdadeira mistagogia, isto é, um mergulho no mistério do Senhor, de cuja vida somos chamados a participar. E isso com todo o respeito e dignidade!

10 comentários:

  1. Acho a reforma(missa de Paulo VI) um grande erro, a missa nova serviu apenas para afastar os católicos.Se o rito tridentino fosse mantido, tudo seria diferente.Digo isso porque assito 2 vezes ao mês em São Paulo, a missa em latim.Lá tudo é diferente, a pregação(focado na manutênção da fé católica), o canto gregoriano..enfim, conheci este ano a missa em latim e fiquei impressionado.Ela (missa em latim) é tudo o que eu sempre procurei e nunca encontrei na missa nova(de Paulo VI).

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  2. Prezado Fábio,
    De fato, o Rito Romano em sua forma extraordinária (ou gelasiano-gregoriana ou tridentina) pode expressar melhor a fé católica a respeito da Santa Missa. E eu também prefiro muito mais o canto gregoriano, sem dúvida. Mas não devemos considerar o Novus Ordo de Paulo VI um erro. O novo Missal foi aprovado pela Suprema Autoridade da Igreja e, como tal, é válido e é atuamente a forma ordinária do Rito Romano. Precisamos lutar para pôr fim aos abusos litúrgicos.

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  3. Concordo com tudo do Rito Romano, mas como 53 anos de católica Apostolica Romana,catequista há 20 anos, toda renovação da Igreja; claro que sem exageros,pois eles existem ,e eu sou radical,pois na minha casa todos eram católicos,meu pai Congregado Mariano, e o que faltava na minha vida de católica era o avivamento no Espirito Santos. Depois tudo ficou mais fácil até mesmo para evangelizar as crianças com Novo ardor e com o Querigma cfe o nosso papa João Paulo II sempre insistiu aos catequistas,QUE MUITOS DESCONHECEM.Pois ele dizia que a catequese deixava muito a desejar. As crianças faziam a Eucaristia e não conheciam quem era Jesus. Isso eu sempre concordei.Pois catequista para falar do Amor de Deus ela deverá primeiro sentir esse Amor e dar testemunho de vida, em todos os momentos da vida,enfim ser um livro aberto,pois está a frente de crianças e jovens que não conhecem Jesus. Temos dificuldades em evangelizar,pois as famílias,não generalizando-as, deixam os filhos na porta da Igreja,como se fôsse escola, e esperam que os mesmos sejam educados pelos catequitas, sendo que na verdade a catequese começa em casa.
    Falamos que Deus ama e na casa não vivenciam esse Amor com os pais. Fazer as Leis da Igreja é fácil, o dificil é como introduzí-las se muitas vezes não temos apoio dos Padres da paróquia. que ajudariam muito se fossem em reunião de pais dos catequizandos. Graças a Deus muitos católicos ainda vê no sacerdote uma autoridade que está no lugar de Jesus. Entendo que a liturgia deverá colocar sempre JESUS,como Único Senhor e Salvador. Mas quando a linguagem do sacerdote é dificil p/entenderem, perde-se a comunhão,com os comentários após missa.Não estou tbém generalizando os sacerdotes.

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  4. Cfe Pe.Etilio comenta s/a liturgia,com respeito ao seu pensar,qto a bater palmas,dançar,ninguém é obrigado a fazer.Sempre gostei de missas alegres,onde chegava em casa cantando hinos e..
    Existe exageros?Sim! Mas o Pe. não deve generalizar e nem dizer que católicos saem da Igreja. Pois com as experiências na minha Paróquia aumentaram, retornaram muitos que não iriam mais. O que aconteceu: Qdo começou a ter retiros de experiencia de oração,retiros sobre os dons do Espirito Santos,os carismas. O povo católico começou a situar-se na Palavra que então ainda não tinha o hábito de ler. Por isso eu posso falar que não concordo totalmente com o Pe. Etilio, a FÈ é qdo vivencia o AMOR de DEus, e se tem convicção doque está falando. Jesus há 2000 anos esteve conosco, e somente +ou- 30 anos é que o católico começou a clamar o Espirito Santos, pois não sabiam quem ELE era.E ainda muitos não sabem somente falam. então a renovação que houve na Igreja católica e aceita por alguns sacerdotes ,com certeza foram ótimas,mas com afastamento dos lideres, começam a efriar e ir conhecer outras denominações .Mas para se aprofundar na FÈ temos que ser fortes e persistentes. Deus o abençoe sempre!!!

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  5. Prezado anônimo,
    Não resolve dizer que ninguém está obrigado a bater palmas e dançar ou rebolar na Santa Missa. O certo é que isso não deve ser feito nem incentivado de modo algum. Hoje, sem generalizações, é claro, devemos reconhecer que grande parte dos católicos não têm a mínima consciência do autêntico significado do Sacrifício da Missa. Para muitos, a Missa não passa de um culto ao estilo protestante. Bento XVI está empenhado em reformar a liturgia e corrigir as deformações a que o culto da Igreja tem sido submetido. Rezemos pelo Papa, para que não fuja dos lobos, que atualmente são muitos!

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  6. Em todas as paróquias de minha cidade, Deus é subtraído da reverência que lhe é devida na Santa Missa. Dizendo, assim, a maioria das pessoas religiosas entende esta chamada como algo de um antigo autoritarismo incompatível com a estratégia de atração que exige um acesso carregado de carinho a Deus e desde Deus. O homem moderno é melindroso e centrado em si mesmo, se Deus não for apenas um Consolador para ele, não o atrai, dizem. Fui queixar com meu pároco e ele me disse: “não, nada disso, Deus entende e tem o coração grandioso, não posso tolher a expressão de cada um por um legalismo na Liturgia”. Mas, o que constato é o seguinte: na verdade, tiramos Deus quando não o reverenciamos na consideração de sua glória e com toda sua beleza. Precisamos da Transfiguração de Jesus como fonte de segura esperança e como consolação. Mas também como referência que nos forma e que sustenta nossa alegria. É por isso que Deus deixou de ser nosso herói, e menos ainda que nosso pai terreno é nosso herói na infância e, assim, cada vez menos aceitamos que Deus nos corrija e seja nosso formador através da sua autoridade, pela qual até sua ira é misericórdia conosco. Quem mais se confunde é o humilde. Fica perdido na Santa Missa e até acuado pela obrigação de reverenciar os outros, seus meros semelhantes. Tudo encenação, porque sem Deus no seu devido lugar, a garantir que seremos unidos por sua glória e que Ele vence as divisões, ficamos paparicando por ideologia que valoriza o esforço humano para a auto-justificação de cada um. Vejo com tristeza que os pobres quase que passaram a “celebrar” sua própria “missa” dentro da Santa Missa, porque se tornou absurda a autoridade do Sacerdote. No entanto, o Sacerdote é o Cristo na Santa Missa e, perdendo o sacerdote, perdemos Cristo.

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  7. Prezado Leonardo,
    O homem moderno, vivendo num mundo altamente tecnizado, tem dificuldade de reconhecer tudo que não seja simplesmente "feito" à sua imagem e semelhança. Tem dificuldade de reconhecer que a liturgia é, antes de tudo, um DOM que não pode ser manipulado. Recuperar o sentido da liturgia como um "dom" (e não como algo simplesmente "feito" por nós)é um dos maiores desafios da Igreja em nosso tempo.

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  8. Prezado Elílio,
    Não creio que a questão perpasse pelo egocentrismo da "imagem e semelhança" humana; Mas sim de uma fé que tem o fator antropológico fortemente marcado. A experiência de Deus é modulada pela experiência antropológica do indivíduo (não de modo absoluto, mas de certo modo).
    Creio que o resultado de tal situação seja um certo pluralismo: diversos tipos de missa (cada um vai na qual está "em sintonia" em determinada data). Mesmo pq o próprio temperamento humano varia dependendo do dia.
    A espiritualidade é um exercício diário, e os dias não são constantes.
    É complicado colocar hierarquias tais com: "rito assim é melhor que assado".
    São apenas diferentes.
    Um mesmo texto é relatado por vários evangelistas de acordo com o público a que é destinado indicando que no texto isso já está entendido e sob certo aspecto solucionado.
    Essa semana fiquei sabendo de uma muito boa... Muitas pessoas gostam da missa de um determinado sacerdote pq ele é rápido. Quem tá com pressa vai na missa dele.
    Achei absurdo de começo, mas depois me perguntei quem somos nós para julgar a devoção alheia.
    Cada um pratica a fé que tem, deve ser por isso que a teologia depende tanto do dado da revelação que é contínua e que se dá, quando se dá, não tem como obrigar ninguém a tê-la.
    O espírito sopra onde, como e quando quer... e isso gera polêmicas certamente.
    May

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  9. May,
    A Igreja não tem diversos tipos de Missa, cada qual adaptada a um gosto ou paladar. No âmbito do Ocidente, temos o Rito Romano (além do ambrosiano), e duas são as suas formas: a ordinária, conforme o Ordus de Paulo VI, e a extraordinária, conforme o Missal reformado por João XXIII em 1962. O padre tem no mínimo a obrigação de celebrar como a Igreja celebra. É um equívoco achar que o padre pode mudar o que não lhe é permitido tocar. Santo Tomás diz que é falsificação oferecer a Deus um culto de forma contrária às instituições divinas ao costume da Igreja. O que vemos hoje, em muitos casos, é essa falsificação.

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  10. Gostaria que em Juiz de Fora tivesse a Missa Tridentina.Eu era acólito dessa Missa em Campos e em Niterói. Agora vivo em Juiz de Fora por causa do meu trabalho. Paulo Morse Tel 32-33119952

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