Pular para o conteúdo principal

Liturgia: um desafio

Jornal O Lutador Online
Edição 3670 - 21 a 30 de setembro de 2009

Do lado de fora, o mundo envolve a Igreja com suas crises: a fome e o desemprego, a violência urbana e o terrorismo, entre tantas outras. Do lado de dentro, pulsa um desafio inadiável: reorientar a vida litúrgica para seu verdadeiro foco: celebrar a Páscoa do Ressuscitado.

Excessos e desvios

No próximo dia 4 de dezembro, vamos comemorar o 46º aniversário natalício da Constituição conciliar sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium, aprovada em sessão solene do Vaticano II com 2.147 votos, e apenas 4 sufrágios negativos. Após um período de entusiasmo e experiências de todo tipo, hoje a Igreja Católica se vê diante de um desafio que pede atitudes bem concretas: reformar a reforma pós-conciliar para recuperar valores essenciais da vida litúrgica.

De todos os quadrantes, erguem-se denúncias e protestos contra o clima de nossas celebrações: excesso de ruído – mesmo disfarçado de música – nas assembléias dominicais. Excesso de palavras, autêntica verborragia que ameaça deixar a Palavra de Deus em segundo plano. Evidências de libertinagem litúrgica, com os agentes da celebração, leigos e presbíteros, muito à vontade para acrescentar seus “cacos” aos gestos e palavras rituais. Deslocamento da celebração para o show, quando se confunde ação litúrgica com atuação televisiva.

Homilias desgarradas da realidade comunitária, mas centradas em aspectos estruturais da vida socioeconômica que fogem à iniciativa imediata dos ouvintes. E muito mais...

Redescobrir o silêncio

Em dezembro de 2003, o Papa João Paulo II publicava sua brevíssima Carta apostólica Spiritus et Sponsa [O Espírito e a Esposa], na comemoração dos 40 anos da Sacrosanctum Concilium. Já naquela época, o Papa citava o Concílio, recordando que a ação litúrgica “é ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja”. Boa lembrança para aqueles utilitaristas que “aproveitam” a assembléia litúrgica para resolver outros problemas e tratar de outros assuntos, que se constituem verdadeiros quistos e corpos estranhos no corpo da celebração litúrgica.

No mesmo texto [nº 13], João Paulo II advertia: “Um aspecto que é preciso favorecer de modo especial em nossas comunidades é o seguinte: a experiência do silêncio. Temos necessidade dele para acolher em nossos corações a plena ressonância da voz do Espírito Santo e para unir mais estreitamente a oração pessoal à Palavra de Deus e à voz pública da Igreja. Em uma sociedade que vive de maneira sempre mais frenética, muitas vezes atordoada pelos ruídos e dispersada naquilo que é efêmero, redescobrir o valor do silêncio é vital”.

Diante da atual popularização de práticas e métodos de meditação não-cristãos, o Papa perguntava: “Por que não adotar, com audácia pedagógica, uma educação específica para o silêncio no interior de coordenadas próprias da experiência cristã? Temos diante dos olhos o exemplo de Jesus que ‘saiu de casa e se retirou a lugar deserto, e ali ele rezava’ (Mc 1,35). Entre seus diversos momentos e sinais, a Liturgia não pode negligenciar o silêncio”.

Reencontrar o caminho

Muita gente acredita que nos desviamos da estrada real e entramos por um desvio litúrgico. Se antes havia queixas (justificadas!) contra o rubricismo que engessava a celebração litúrgica, agora caímos na terra de ninguém da libertinagem, onde qualquer um se sente no direito de manipular a celebração, dando-lhe contornos políticos, mudando-a em teatro ou em preferências poéticas intimistas, ao ignorar os gestos e palavras essenciais ao rito da Igreja apostólica.

Em outubro de 2003, falando à assembléia anual dos Bispos do Canadá, o Cardeal Arcebispo de Malines (Bélgica), Mons. Godfried Danneeels, observava com propriedade: “A participação ativa na liturgia, o fato de prepará-la juntos, o cuidado de aproximá-la o mais possível da cultura e da sensibilidade dos fiéis podem conduzir imperceptivelmente a uma espécie de apropriação da liturgia. A participação e a celebração mútua podem conduzir a uma forma sutil de manipulação. Quando assim ocorre, a liturgia é não somente despojada de seu caráter intangível – o que não é mau em si -, mas se torna, em certo sentido, propriedade daqueles que a celebram, como um domínio abandonado à sua ‘criatividade’. Aqueles que estão a serviço da liturgia – padres e leigos – acabam como se fossem seus ‘proprietários’”.

Na ânsia de encontrar o caminho, as paróquias redobram esforços exatamente naquilo que é puramente ação humana e horizontal [mais flores, mais cânticos, mais procissões, mais encenações, mais palavras...], neutralizando, por excesso, o sentido profundo dos gestos e palavras e deixando cada vez mais oculta a ação divina nos seus mistérios. Naturalmente, tais procedimentos batem de frente com as orientações de João Paulo II na Exortação apostólica Sacramentum Caritatis: “A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas”. (SCa, 40.)

O choque da realidade

Tudo isto aponta para a mesma direção: o estilo de vida que adotamos não se enquadra com a realidade dos mistérios celebrados. Agitados, ruidosos, hipertensos, presos a um aranhol de ninharias e preocupações materiais, incapazes de erguer os olhos aos céus durante a semana, a celebração dominical não recebe de nossa parte um olhar contemplativo, um abandono silencioso à ação de Deus. Nem na vida, nem na liturgia. Por isso mesmo, muitas vozes afirmam que a liturgia só será renovada quando nossas vidas forem renovadas. E que é de fora para dentro que tal renovação acontecerá na vida litúrgica da Igreja.

Creio que há uma verdade nessa tese: se nós vivemos como pagãos, venerando os ídolos de plantão – dinheiro, sexo, sucesso e poder -, que sentido pode ter para nós a atualização da morte e ressurreição do Cristo Senhor? Nossa tendência natural será a de transportar para o coração da ação litúrgica os mesmos sentimentos e atitudes de nosso dia-a-dia.

E assim, aquilo que devia ser a Páscoa dominical acaba tendo ares de um velho filme, sem arte e sem vida, que não vale a pena ver de novo... (ACS)

Comentários

  1. Padre, sua bênção.
    Muito interessante o artigo.

    Recentemente fui escolhido pra ser coordenador aqui da música litúrgica paroquial... Há muito o que se fazer, e há também quem queira resistir a qualquer mudança...

    Estes artigos que o senhor põe neste espaço me são de muita ajuda. Agradeço imensamente e, mais uma vez, peço-lhe a sua bênção.

    Fábio

    ResponderExcluir
  2. Fábio,

    Lutemos por uma liturgia que seja de fato digna do mistério que é celebrado.
    Seja feliz!

    ResponderExcluir
  3. excelente artigo, desejo que os bispos leiam!!

    ResponderExcluir
  4. Padre Elílio, sua benção!

    Aproveitando a oportunidade, já que o assunto é sobre a liturgia, o sr. poderia me tirar uma dúvida referente a uma parte da encíclica mediator dei?

    Eis a parte na qual surgiu minha dúvida:

    "106 ...Aliás, para melhor e mais claramente manifestar-se a participação dos fiéis no sacrifício divino por meio da comunhão eucarística, o nosso imortal predecessor Bento XIV louva a devoção daqueles que, não só desejam nutrir-se do alimento celeste durante a assistência ao sacrifício, mas preferem alimentar-se com hóstias consagradas no mesmo sacrifício, se bem que, como ele declara, participemos verdadeira e realmente do sacrifício, mesmo quando se trate de pão eucarístico devidamente consagrado antes. Assim, com efeito, escreve: "Embora participem do mesmo sacrifício não só aqueles aos quais o sacerdote celebrante dá parte da Vítima por ele oferecida na mesma missa, mas também aqueles aos quais o sacerdote dá a eucaristia que se costuma conservar; nem por isso a Igreja proibiu no passado, ou proíbe atualmente, que o sacerdote satisfaça à devoção e ao justo pedido daqueles que assistem à missa e pedem para participar do mesmo sacrifício, também por eles oferecido na maneira que lhes é apropriada; antes aprova e deseja que assim se faça e reprovaria os sacerdotes que, por sua culpa ou negligência privassem os fiéis desta participação". (108)

    Sinceramente, eu não consegui entender essa parte...

    Padre, se o senhor puder nos iluminar, ficariamos grato...

    Pedro Henrique

    ResponderExcluir
  5. ...A eucaristia que se costuma conservar antes, a Igreja não proibiu no passado nem atualemente, que o sacerdote satisfaça à devoção e ao justo pedido daqueles que assistem à missa e pedem para participar do mesmo sacrifício, também por eles oferecido na maneira que lhes é apropriada; antes aprova e deseja que assim se faça e reprovaria os sacerdotes que, por sua culpa ou negligência privassem os fiéis desta participação...

    Não entendi mesmo...

    Pedro

    ResponderExcluir
  6. Prezado Pedro,

    O texto diz: 1) É louvável a devoção de quem deseja comungar da hóstia consagrada na mesma Missa de que participa; 2) Isso, no entanto, não desmerece a participação daqueles que, participando verdadeiramente da Missa, comungam da hóstia consagrada antes; 3) Os sacerdotes devem estar dispostos a atender ao pedido dos fiéis que desejam comungar da hóstia consagrada na mesma Missa de que participam.

    ResponderExcluir
  7. Mas aí é que eu encontrei dificuldade. eis:

    Na segunda questão, no qual o sr. esclarece que "não desmerece a participação daqueles que, participando verdadeiramente da Missa, comungam da hóstia consagrada antes;"

    As pessoas comungam da hóstia consagrada na mesma Missa... Nunca tinha ouvido falar de se comungar da hóstia consagrada antes, que obviamente devia estar conservada.

    Obviamente, na questão 3 de que os Sacerdotes "devem estar dispostos a atender ao pedido dos fiéis que desejam comungar da hóstia consagrada na mesma Missa de que participam"

    eu imagino que o Papa devia estar tratando de problemas referentes a sua época, já que hoje o problema é inverso. Oferecem-se as hóstias consagradas até para pessoas divorciadas, para protestantes, sem fazer referência de que a pessoa precisa abraçar a fé católica integral e firmemente e estar em estado de Graça.

    Pedro Henrique

    ResponderExcluir
  8. Caro Pedro,

    Acontece muitas vezes que a hóstia distribuída numa Missa é a que foi consagrada numa Missa anterior. O texto diz apenas que é mais significativo que os fiéis possam comungar da hóstia consagrada na própria Missa de que participam. Quanto a quem está apto para comungar ou não é outra questão, na qual o trecho do texto não tocou. Evidentemente, só deve comungar quem está em estado de graça; essa é a doutrina constante da Igreja, que não mudou.

    ResponderExcluir
  9. Grato pela resposta, Padre.

    Pedro

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Sexualidade humana: verdade e significado

  Sexualidade Humana: Verdade e Significado Orientações para a educação da sexualidade na família Introdução A sexualidade humana é uma dimensão fundamental da pessoa. Ela não pode ser reduzida a um simples fenômeno biológico ou instintivo, pois envolve a totalidade do ser humano: corpo, afetividade, inteligência e liberdade. Por isso, compreender a sexualidade humana exige inseri-la dentro de uma visão integral do homem e de sua vocação ao amor. O documento “Sexualidade Humana: Verdade e Significado”, publicado pelo Conselho Pontifício para a Família em 1995, oferece orientações sobre a educação da sexualidade, especialmente no âmbito da família. Seu objetivo principal é ajudar pais e educadores a transmitir aos jovens uma compreensão verdadeira e digna da sexualidade, fundada na dignidade da pessoa humana e na vocação ao amor. Segundo esse documento, a educação sexual não deve limitar-se à transmissão de informações biológicas. Ela deve ser, antes de tudo, educaçã...

Instrução Dignitas Personae

  A dignidade da pessoa humana segundo a Instrução  Dignitas Personae  (2008) 1. Introdução A instrução Dignitas Personae, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 8 de setembro de 2008 e aprovada pelo Papa Bento XVI, trata de questões bioéticas relacionadas à origem e à dignidade da vida humana. Seu objetivo é orientar a reflexão moral diante das novas possibilidades oferecidas pelas biotecnologias, especialmente aquelas ligadas à reprodução humana, à manipulação genética e à pesquisa com embriões.  O documento procura formar as consciências e incentivar a pesquisa científica, desde que respeite a dignidade da pessoa humana, reconhecida desde a concepção até a morte natural.  A instrução dirige-se não apenas aos católicos, mas também a médicos, cientistas, legisladores e a todos os que procuram a verdade sobre a vida humana.  PARTE I Fundamentos antropológicos, teológicos e éticos 1. A dignidade da pessoa humana O p...

A lógica da eficiência, o domínio da técnica e o esquecimento da contemplação

A lógica que parece dominar o mundo contemporâneo é, antes de tudo, a lógica da eficiência . Trata-se de uma racionalidade que valoriza, acima de qualquer outro critério, a capacidade de produzir resultados, otimizar processos e alcançar objetivos com o máximo de rendimento possível. Essa lógica manifesta-se de modo particularmente visível no sistema econômico moderno, cuja dinâmica se estrutura em torno da produtividade , da utilidade e da maximização de resultados . No entanto, seria um equívoco pensar que essa lógica pertence exclusivamente ao capitalismo. Na realidade, ela expressa algo mais amplo: uma verdadeira ideologia da eficiência . Segundo essa ideologia, o valor das coisas tende a ser medido pela sua utilidade, pela sua funcionalidade ou pelo seu desempenho. Tudo passa a ser avaliado segundo critérios operacionais: o que serve, o que funciona, o que produz efeitos mensuráveis. Nesse horizonte, prevalece aquilo que muitos pensadores chamaram de razão instrumental , isto é, ...