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Padre Vaz e a "rememoração" da metafísica tomásica

Padre Elílio de Faria Matos Júnior Um dos grandes temas presentes na obra do Padre Vaz é, indiscutivelmente, a metafísica. Ao lado de temas de primeira grandeza que figuram em seus escritos, tais como a história, a cultura, a ética e a antropologia, aparece a metafísica, e a ela Padre Vaz sempre se refere como uma questão decisiva para o pensar filosófico, de modo a deixar claro que seu pensamento constitui-se a partir de uma decidida opção pela metafísica. [1] Sabemos que não é fácil dar uma definição de metafísica, uma vez que o termo assume diversos significados segundo os diversos autores e épocas diversas. No entanto, podemos ver que, para o Padre Vaz, existe uma unidade fundamental na compreensão da metafísica a partir da visão do itinerário por ela percorrido, desde suas origens na Grécia antiga, em via ascendente, até o alto cimo que atingiu com o pensamento de Santo Tomás de Aquino e sua metafísica do esse (metafísica do ato de existir ). Depois de ter atingido o seu pont...

A Palavra de Deus é uma só

Padre Elílio de Faria Matos Júnior A Palavra de Deus, meu irmão e irmã, é uma só, e foi gerada pelo Pai antes da fundação do mundo, isto é, desde toda eternidade. Esta Palavra é, portanto, eterna e incriada. Ela é a sabedoria de Deus. São João chega a dizer: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus” (Jo 1,1). Vejamos, pois, a importância e a dignidade da Palavra: “A Palavra era Deus” . Nós, seres humanos, dizemos muitas palavras, porque somos limitados e não conseguimos dizer tudo por meio de uma só palavra. Mas Deus é diferente. Ele diz tudo por meio de uma só Palavra, gerada desde toda a eternidade. A Palavra é seu Filho amado. E essa Palavra é pronunciada pelo Pai no silêncio de sua riquíssima vida interior, de modo que, para ouvi-la, devemos silenciar as muitas palavras que agitam e inquietam o nosso coração. São João da Cruz, grande místico da Igreja, nos ensina que “o Pai  diz  uma  Palavra  que  é  seu ...

Dízimo: fundamentos antropológicos e escriturísticos

1 PONTO DE PARTIDA: A RELIGIOSIDADE HUMANA Para se falar de dízimo, é preciso, antes de tudo, considerar uma verdade de ordem antropológica e histórica: o homem sempre se viu na necessidade de oferecer algo à Divindade, de desfazer-se mesmo de algum bem seu para consagrá-lo a Deus. Na verdade, o dízimo bíblico é apenas uma das formas pelas quais o homem tem expressado esse seu relacionamento com a Divindade. Outras formas historicamente detectáveis ao longo dos tempos são: o oferecimento das primícias, o pagamento de impostos ou tributos religiosos, os sacrifícios, os votos e promessas, obras de arte, etc. O homem é um ser naturalmente religioso, isto é, o intercâmbio com a Divindade sempre caracterizou o seu modo de ser em todos os tempos e culturas: sejam mencionados os agradecimentos pelos benefícios, os pedidos de favores, de reconciliação, o reconhecimento da bondade divina, a atenção à vontade do alto... Tudo isso podemos encontrar onde quer que o homem se tenha fe...

Fé e razão no Ocidente

Deve-se dizer que a problemática que envolve as relações entre Teologia e Filosofia ou fé e razão é de atualidade permanente em nossa cultura ocidental, pois, como sabemos, dois fatores foram constitutivos de nossa civilização: o ideal da razão manifestado na cultura grega e a vida a partir da fé apresentada pelo judeu-cristianismo. Em seu artigo " Metafísica e fé cristã: uma leitura da Fides et Ratio ", [1] o filósofo jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz sustenta que os eventos helênico e bíblico, abrindo para a consciência a experiência da Transcendência real, constituíram o "tempo-eixo" de nossa civilização ocidental. Foi exatamente do encontro desses dois fatores que resultou nossa cultura. Não há, pois, como simplesmente ignorar a problemática concernente à relação entre fé e razão. Pois bem. Surge agora uma pergunta: Por que hoje a relação entre fé e razão, Teologia e Filosofia, encontra-se, na melhor das hipóteses, num impasse? O establishment filosófico at...

O homem e o ser

. Padre Elílio de Faria Matos Júnior De acordo com a visão de Padre Vaz, ninguém pode negar a realidade da dimensão espiritual do homem sem cair em contradição. O argumento de retorsão é, nesse sentido, utilizado por Padre Vaz para fazer ver que não se pode negar a dimensão espiritual sem ter de supô-la em exercício no ato mesmo da negação. O argumento de retorsão, na verdade, foi usado na Antiguidade por Aristóteles para silenciar os negadores do princípio de não-contradição. Padre Vaz sustenta que o mesmo argumento é capaz de reduzir ao silêncio os negadores do espírito. Com efeito, Padre Vaz leva em conta, no discurso da antropologia filosófica, a autoposição do sujeito, que leva adiante o movimento dialético da passagem da Natureza à Forma. O Eu sou se afirma, e, no movimento de autoafirmação – também chamado de momento tético -, interroga-se e põe-se a si mesmo em questão na busca de compreender-se a si mesmo – o que é o homem? Ora, no movimento mesmo de autoafirmação, o h...