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Luc Ferry, imanência e transcendência

 

Segundo Luc Ferry, as religiões em geral sofrem um processo de imanentização. Ele diz que a grande conquista do pensamento laico foi a de superar todo tipo de autoridade externa. O poder não é mais do rei, mas do povo. A verdade não mais desce do céu, mas é tarefa da consciência. O indivíduo não é mais uma mera função do todo orgânico, mas é autônomo. 

Nesse sentido, segundo Ferry, o discurso religioso tem procurado humanizar-se. Já que o paradigma da verdade exterior foi seriamente abalado pela modernidade, a verdade só pode ser encontrada no homem. Para não se tornar totalmente inexpressiva, a mentalidade religiosa tem procurado apoiar-se no humanismo do pensamento moderno, mas, ao fazer isso, reduz-se a mero enfeite da mentalidade laica. O que a religião acrescentaria ao humanismo imanentista? Apenas um sentimento, um elã espiritual marcado pela fé numa transcendência vaga. 

Assim, as religiões ocidentais hoje falam muito mais de direitos humanos do que de direitos divinos, muito mais de convivência pacífica do que de guerras em nome de verdades sagradas, muito mais de justiça social e ecologia do que de céu e inferno. As escrituras sagradas estão cada vez mais sendo interpretadas como textos carregados de símbolos daquilo que o homem já traz consigo, não mais como depositárias de revelações sobrenaturais. Ferry, na verdade, propõe, coerentemente com seu discurso, um humanismo secular, enriquecido, porém, por uma espiritualidade — laica —  que possa fazer ver e sentir que cuidar da vida é divino. Ele procura encontrar o divino sem o Deus transcendente das religiões. Ele considera que o divino está no homem e passa por ele, sem se reduzir a nenhum tipo de transcendência. 

Desse modo, enquanto o discurso religioso tende a humanizar Deus, o discurso laico tende a divinizar o homem. 

Que dizer? 

O tema diz respeito à problemática da imanência e da transcendência. Grandes teólogos já tem feito o trabalho de relacionar transcendência e imanência sem negar nem esta nem aquela, ou de superar o extrincesismo da revelação sem negar a transcendência de Deus. Esse é o grande desafio do discurso teológico do nosso tempo, pois o discurso pautado num paradigma extrincesista não convence mais.

Não se deve cair no panteísmo, é certo, mas não se deve negar, como dizia Rahner, que há uma certa antecipação da relevação no espírito humano pelo fato mesmo de sua natureza espiritual. Ratzinger diz coisa semelhante, a meu ver, quando afirma que ter alma espiritual significa ser parceiro de diálogo com Deus. Pelo fato de sermos espírito — espírito no mundo, mas espírito —, já estamos no horizonte do divino, que, como dizia Agostinho, é mais alto que nossa altura e mais íntimo que nossa intimidade.

Ademais, a metafísica do ser (esse), tal como elaborada por Tomás de Aquino e desenvolvida por Fabro, Gilson e outros, procura mostrar que o ser que os entes têm fazem referência ao Ser por essência (Ipsum Esse Subsistens), como o participante ao participado. Assim, a noção de participação do ser dos entes no Ser subsistente salvaguarda a real transcendência do Princípio, que Ferry nega, e também a real densidade e inteligibilidade das realidades finitas, que Ferry quer afirmar. Pela participação, o ser do mundo e do homem tem o direito de se afirmar sem que todo o seu sentido esteja fora de si mesmo ou sem que um outro ente roube a sua consistência. Em nível categorial, o ser do mundo e do homem tem uma inteligibilidade intrínseca. É em nível transcendental que ele fará referência ao Esse puro, sem que isso lhe roube a densidade própria. A referência transcendental do ser dos entes finitos ao Ser subsistente não é uma relação de dominação extrínseca do Ser para com os entes, mas de constituição do ser dos entes pela doação de ser pelo Ser. 

Que, então, a religião acrescentaria ao humanismo? Não um mero sentimento, um elã espiritual apoiado numa transcendência vaga, mas a referência do mundo e do homem a uma transcendência real, plenitude de Ser, que não nega o ser dos entes, mas lhes doa ser e autonomia. 

Que o humanismo acrescentaria à religião? A necessidade do reconhecimento de uma legítima autonomia e consistência do ser dos entes. 

Comentários

  1. Muito boa a abordagem! Essa religião social foi domesticada pelo humanismo moderno e contemporâneo, deixando de lado a tensão permanente, do contato com o Transcendente

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