Pular para o conteúdo principal

Teologia e caridade

A teologia deve conduzir à vida de caridade. A caridade é o elo de união do homem com Deus e dos homens entre si. Trata-se de uma união marcada pelo dom, pelo maravilhamento, pela gratuidade ou pela vivência da bondade do ser.

O ser é, antes de tudo, o ser de Deus. Mas o ser de Deus é participado pelo ser das criaturas. Esse ser é mistério de luz e gratuidade. O mistério que caracteriza o ser não é algo indecifrável, cujo conhecimento é proibido, ou decifrável apenas por algum artifício ou esperteza reservada a alguns. Não se trata de enigma. O mistério é a grandeza do ser. É sua inefabilidade ou ‘não dizibilidade’ pelos simples conceitos e palavras humanas.

O ser é luz abundante e inesgotável que não pode ser toda contida em limitados meios de recepção ou expressão. O mistério do ser é muito mais vivido do que teorizado em raciocínios. A inteligência do ser é fundamental, pois o homem é inteligente e o próprio ser é verdadeiro, é correspondência com a inteligência. No entanto, só a inteligência divina compreende perfeitamente o ser e o diz em um único verbo. Nossa inteligência humana o balbucia, e mais se aproxima de sua compreensão quando, ajudada pelo raciocínio, vai além do raciocínio e se entrega à contemplação daquilo para o qual o raciocínio aponta como sua Fonte ou seu Desaguar. A inteligência, contemplando o ser, recebe-o, e, maravilhada pela sua grandeza, entrega-se a ele; o espírito faz-se dom ao ser a partir do dom que lhe faz o ser. Acolhimento do ser e consentimento ao ser.

Na contemplação, a inteligência se faz amor, caridade — repouso no bem, êxtase, experiência da gratuidade. O discurso teológico sempre deve tender para esta meta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A autoridade papal fica de pé

O episódio ocorrido na noite de Natal deste ano na Basílica de São Pedro em Roma é, de certa forma, um símbolo dos tempos atuais. O Papa, Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, cai. A mitra, símbolo de sua autoridade, rola no chão. A férula, que representa a sua missão de pastor universal, é derrubada pelo homem moderno, desorientado, confuso e como que fora-de-si. Louca ou não, a jovem de 25 anos que provocou o incidente bem representa o mundo de hoje, que joga por terra a autoridade e as palavras do Romano Pontífice, que, na expressão da grande Santa Catarina de Siena, é «o doce Cristo na Terra». A jovem é louca? Não sei. Mas sei que o é, e muito, o mundo que rejeita Deus e o seu Cristo para abraçar o vazio e caminhar nas trevas. Bento XVI se ergue rápido e continua seu caminho. Celebra a Santa Missa, que é o que há de mais sublime sobre a face da Terra, rende o verdadeiro culto a Deus e conserva-se em seu lugar, como pastor colocado à frente do rebanho pelo Pastor Eterno, ...

Reencarnação ou ressurreição?

Muitos são levados a crer na reencarnação porque acham que ela pode explicar, com lógica férrea, o fato de uns viverem neste mundo em melhores condições do que outros. Assim, uns vêm de boas famílias, que lhes dão todas as condições para uma vida digna e feliz, enquanto outros ficam privados da educação mínima e da formação do caráter por não terem tido a sorte de nascerem no seio de uma família estruturada. Outros, muitos dos quais inocentes e gente que só faz o bem, são atormentados com terríveis sofrimentos corporais e psíquicos, morais e espirituais, sem que entendamos o porquê de uma situação aparentemente tão injusta. Os exemplos poderiam multiplicar-se, dando-nos a ver que a vida parece ser muito injusta com não poucos homens e mulheres. O relativo sucesso da doutrina reencarnacionista estaria em oferecer uma resposta a esse impasse, ensinando que as diversas sortes das pessoas neste mundo devem-se ao teor do comportamento moral que levaram em vidas passadas. Dizem q...

Considerações em torno da Declaração "Fiducia supplicans"

Papa Francisco e o Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé Este texto não visa a entrar em polêmicas, mas é uma reflexão sobre as razões de diferentes perspectivas a respeito da Declaração Fiducia supplicans (FS), do Dicastério para a Doutrina da Fé, que, publicada aos 18 de dezembro de 2023, permite uma benção espontânea a casais em situações irregulares diante do ordenamento doutrinal e canônico da Igreja, inclusive a casais homossexuais. O teor do documento indica uma possibilidade, sem codificar.  Trata-se de uma benção espontânea,  isto é, sem caráter litúrgico ou ritual oficial, evitando-se qualquer semelhança com uma benção ou celebração de casamento e qualquer perigo de escândalo para os fiéis.  Alguns católicos se manifestaram contrários à disposição do documento. A razão principal seria a de que a Igreja não poderia abençoar uniões irregulares, pois estas configuram um pecado objetivo na medida em que contrariam o plano div...