Gregório de Nissa foi um dos autores cristãos antigos mais radicais na crítica à escravidão. Em um contexto no qual a escravidão era considerada algo normal no mundo greco-romano — inclusive por muitos filósofos — ele formulou uma crítica profundamente teológica e antropológica à ideia de que um ser humano pudesse possuir outro.
O texto mais famoso sobre isso aparece em suas Homilias sobre o Eclesiastes, especialmente comentando a frase bíblica: “Comprei servos e servas” (Ecl 2,7). Gregório reage com indignação. Ele pergunta: como alguém pode “comprar” um ser humano, se o homem foi criado à imagem de Deus? Quem poderia atribuir um preço àquilo que reflete o próprio Deus?
A argumentação dele é impressionante para o século IV. Ele diz, em essência:
Deus fez o homem livre; nenhum homem é senhor da natureza humana; vender ou comprar uma pessoa é usurpar um direito que pertence somente a Deus; reduzir alguém à condição de propriedade é uma violência contra a imagem divina.
Gregório chega a ironizar o mercado de escravos: quanto vale um ser racional? Qual seria o preço da imagem de Deus? Ouro? Prata? Nada poderia equivaler ao valor do homem.
Há aqui algo muito importante: sua crítica não é apenas moral ou sentimental. Ela é metafísica e teológica. O fundamento da dignidade humana é ontológico: o homem participa de uma realidade superior porque é imagem de Deus. Por isso, ninguém pode ser reduzido a objeto de posse.
Nesse ponto, Gregório vai além de muitos autores antigos, inclusive de alguns cristãos. Diversos Padres da Igreja pediam bom tratamento aos escravos ou incentivavam a caridade, mas não questionavam diretamente a instituição da escravidão. Gregório, porém, parece atingir o próprio princípio da escravidão enquanto domínio de homem sobre homem.
Isso faz com que muitos estudiosos contemporâneos o considerem uma das vozes mais “abolicionistas” da Antiguidade cristã.
Ao mesmo tempo, é importante contextualizar:
* ele não organizou um movimento social contra a escravidão;
* não propôs uma reforma jurídica concreta do Império Romano;
* sua crítica aparece sobretudo no plano espiritual, teológico e moral.
Mesmo assim, sua posição é extraordinária para o contexto histórico.
Sua visão também se liga ao núcleo de sua antropologia espiritual: o ser humano possui uma abertura infinita para Deus. Em Gregório, o homem não é algo fechado, manipulável ou redutível a função social. Cada pessoa tem uma profundidade quase inesgotável porque é chamada à participação no infinito divino.
Por isso, escravizar alguém seria não apenas uma injustiça social, mas uma espécie de negação do destino transcendente da pessoa humana.
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