Pular para o conteúdo principal

É o Espírito Santo que escolhe o Papa?

Eu diria que a pergunta está mal posta, pois é uma pergunta simples, que induz a uma resposta de tipo “sim” ou “não”, ao passo que a realidade em questão é complexa, pois envolve a ação de Deus e a ação dos homens, que se dão em níveis distintos e não se limitam necessariamente, mas coexistem, cada qual no seu nível próprio. 

No nível imediato ou fenomenológico, quem escolhe o Papa são os cardeais. No nível transcendental, Deus está sempre agindo, pois ele é o Bem que sempre faz apelos à consciência, para que, na humildade, deixe-se guiar pelo amor da honestidade e da retidão, isto é, no caso concreto do conclave, Deus está fazendo apelos aos cardeais para que formem a sua consciência sobre as necessidades da Igreja e escolham o candidato que julgarem mais adequado. Deus ordinariamente age por causas segundas, que são mais ou menos limitadas. 

Caberá aos cardeais ter a boa disposição para se deixarem iluminar pela luz do Bem. 

Pode acontecer que a consciência de algum cardeal esteja marcada por limitações não-culposas como a ignorância? Sim. Pode acontecer que a limitação seja culposa, como a falta de intenção justa ou a falta de abertura sincera aos apelos do Bem? Sim. 

O certo é que Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes. Mesmo que os cardeais escolhessem, por hipótese, um candidato que não fosse o mais adequado, o eleito teria verdadeira autoridade de Papa, e Deus saberia conduzir a Igreja através dele, ainda que seja tirando bens dos males. Deus sempre garante que o todo ou o bem geral da Igreja não venha a arruinar-se inteiramente. 

O normal, entretanto, é que esperemos que os cardeais se deixem iluminar, vençam tanto quanto possível as limitações e escolham um bom nome, um nome segundo o coração de Deus e segundo as necessidades da Igreja. 

Quem quer que seja eleito, merecerá o respeito, a obediência e amor filial dos católicos no exercício autêntico de seu ministério de Sucessor de Pedro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Saber técnico, saber ético e saber metafísico

A vida humana se articula em ao menos três grandes formas de saber: o saber técnico, o saber ético e o saber metafísico. Cada uma dessas dimensões corresponde a um modo fundamental de nossa presença no real e exprime uma potência própria do espírito. O saber técnico está ligado ao fazer; o saber ético, ao agir; e o saber metafísico, ao contemplar. Nessa tríplice estrutura, o homem se mostra não apenas como ser que opera, mas como ser que escolhe e como ser que admira. Pelo fazer, entramos em relação com os objetos do mundo. Manipulamos a matéria, organizamos meios, produzimos instrumentos, transformamos a natureza e damos forma à cultura. O saber técnico é indispensável à vida humana, pois por ele construímos casas, desenvolvemos a ciência, curamos doenças, organizamos cidades e multiplicamos as possibilidades de ação. Trata-se do domínio da eficácia, da produção e da intervenção sobre o real. Entretanto, o homem não vive apenas de meios. O simples saber fazer algo não responde, por si...

A Primeira Via de Santo Tomás

A primeira via de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus é a chamada prova do motor imóvel, que parte do movimento observado no mundo para concluir a existência de um Primeiro Motor imóvel, identificado como Deus. Ela é formulada assim: 1. Há movimento no mundo. 2. Tudo o que se move é movido por outro. 3. Não se pode seguir ao infinito na série de motores (causas de movimento). 4. Logo, é necessário chegar a um Primeiro Motor imóvel, que move sem ser movido. 5. Esse Primeiro Motor é o que todos chamam de Deus. Essa prova se fundamenta em princípios metafísicos clássicos, especialmente da tradição aristotélica, como: • A distinção entre ato e potência. • O princípio de que o que está em potência só passa ao ato por algo que já está em ato. • A impossibilidade de regressão ao infinito em causas atuais e simultâneas. Agora, sobre a validade perene dessa via, podemos considerar a questão sob dois ângulos: 1. Validade ontológica e metafísica: sim, perene A estrutura m...

A morte de Jesus. Visão de Raymond Brown

  A visão de Raymond E. Brown sobre a morte de Jesus é uma das mais respeitadas no campo da exegese católica contemporânea. Brown foi um dos maiores especialistas em literatura joanina e autor da monumental obra The Death of the Messiah (1994, 2 vols.), que analisa de maneira técnico-teológica os relatos da Paixão nos quatro evangelhos. Seu trabalho é uma síntese rigorosa de crítica histórica, análise literária e teologia bíblica, sustentada por fidelidade à fé católica e abertura ao método científico. Abaixo, apresento um resumo estruturado da sua interpretação da morte de Jesus: ⸻ 1. A morte de Jesus como fato histórico e evento teológico Para Brown, a morte de Jesus deve ser compreendida em duplo registro:  • Histórico: Jesus foi condenado e crucificado por decisão de Pôncio Pilatos, sob a acusação de reivindicar uma realeza messiânica que ameaçava a ordem romana.  • Teológico: desde o início, os evangelistas narram a Paixão à luz da fé pascal, como o momento culminant...