Pular para o conteúdo principal

O homem e a religião


Se não encontramos em nós mesmos as condições de possibilidade de receber uma luz de ordem metafísica; mais: se não reconhecemos em nós uma abertura dinâmica, um movimento para uma luz que em si mesma ultrapassa todas as exigências e expectativas puramente humano-mundanas; ou seja, se não reconhecermos que estamos já, de alguma maneira, para além do mundano e do meramente humano, todo o discurso da religião, com suas narrativas e dogmas, de modo especial nestes tempos de grandes mudanças, soará como obsoleto. Ou então estará simplesmente entregue ao sentimentalismo que não convence os espíritos mais exigentes ou ao fanatismo ou ao fundamentalismo que o desfiguram. 

A revelação cristã não é simplesmente um pacote que cai abruptamente do céu sem nenhuma relação com o que o homem é em sua constituição íntima. Embora o conteúdo ou a finalidade da revelação ultrapasse toda medida humana, pois, em última análise, o seu objeto é a transformação em Deus, é graça pura, ela não encontra na constituição humana um terreno indiferente ou neutro. Ao contrário, o homem está aberto — ativa e dinamicamente aberto — a uma palavra ou a uma luz transcendente. Ele anseia por isso sem saber dar-lhe nome e conteúdo precisos. 

Em seu ser humano, o homem já vive, de alguma maneira, para além do humano-mundano. É tomando consciência disso que o homem atual — esclarecido, informado das grandes conquistas dos saberes acumulados, conhecedor do fim das sociedades sacrais e habitante do clima desenhado pela ciência e pela técnica, também muitas vezes desiludido pela ondas de niilismo e irracionalismo — poderá ver que o que diz a religião em essência não perdeu a atualidade; antes, é de uma atualidade impressionante, só que de uma outra ordem, não daquela simplesmente pragmática.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A respeito da encíclica “Magnifica Humanitas”

A encíclica Magnifica Humanitas , do Papa Leão XIV, dedicada à inteligência artificial, representa uma das intervenções mais importantes recentes da Igreja no debate sobre tecnologia e humanidade. Longe de assumir uma postura meramente alarmista ou tecnofóbica, o documento procura discernir, à luz da tradição cristã e da doutrina social da Igreja, as possibilidades e os riscos da nova revolução tecnológica. Entretanto, o núcleo mais profundo da encíclica não é tecnológico, mas antropológico e metafísico: quem é o homem diante da ascensão das inteligências artificiais? O primeiro grande eixo do documento é a defesa da dignidade humana. A encíclica insiste que o valor da pessoa não pode ser reduzido à produtividade, à eficiência ou à capacidade de desempenho. Em uma civilização cada vez mais marcada pela lógica algorítmica, existe o risco de interpretar o próprio homem como sistema operacional sofisticado, avaliável segundo métricas de rendimento, adaptação e utilidade. Contra isso, o P...

Transformação em Deus: fonte de vida e renovação

Há momentos em que se tem a impressão de que a vida cristã contemporânea se tornou excessivamente ocupada consigo mesma. Multiplicam-se reuniões, planejamentos, projetos, estratégias pastorais, metodologias de gestão, técnicas de comunicação, iniciativas de visibilidade e eficiência. Em muitos ambientes eclesiais, parece haver uma preocupação constante com organização, desempenho e resultados. Em outros, observa-se uma forte centralidade da emoção religiosa: experiências afetivas intensas, entusiasmo devocional, busca de consolações espirituais e de sentimentos de pertença. Tudo isso possui seu lugar e sua legitimidade relativa. A Igreja, enquanto realidade histórica, necessariamente se organiza; e a experiência religiosa toca também a dimensão afetiva do ser humano. Contudo, permanece a pergunta: onde está o caminho da transformação interior? Onde está a busca silenciosa da união com Deus?  Os grandes místicos cristãos recordam que o centro da vida espiritual não consiste nem na e...

S. Gregório de Nissa e a escravidão

Gregório de Nissa foi um dos autores cristãos antigos mais radicais na crítica à escravidão. Em um contexto no qual a escravidão era considerada algo normal no mundo greco-romano — inclusive por muitos filósofos — ele formulou uma crítica profundamente teológica e antropológica à ideia de que um ser humano pudesse possuir outro. O texto mais famoso sobre isso aparece em suas Homilias sobre o Eclesiastes, especialmente comentando a frase bíblica: “Comprei servos e servas” (Ecl 2,7). Gregório reage com indignação. Ele pergunta: como alguém pode “comprar” um ser humano, se o homem foi criado à imagem de Deus? Quem poderia atribuir um preço àquilo que reflete o próprio Deus? A argumentação dele é impressionante para o século IV. Ele diz, em essência: Deus fez o homem livre; nenhum homem é senhor da natureza humana; vender ou comprar uma pessoa é usurpar um direito que pertence somente a Deus; reduzir alguém à condição de propriedade é uma violência contra a imagem divina. Gregório chega a ...