A mística, que é o fim supremo da vida cristã, não tem nada a ver com aparições, visões, êxtases ou fenômenos extraordinários. Se acontecem essas coisas, trata-se de algo secundário, que não constitui a essência mesma da mística. Esta é um perder-se na divindade, um deixar- se absorver no oceano sem limites do Ser (pelagus essendi), que é também Amor (ignis ardens caritatis). A mística pode adquirir feições mais intelectuais, mais afetivas ou mais práticas, mas em uma forma ou outra sempre terá a dimensão da visão: é preciso estar consciente da quase fusão com a divindade, vendo com os olhos da alma a sua Beleza; a dimensão do coração: a união com o Absoluto é tão transformante que reordena os afetos da alma, que se concentra tanto na fonte do Amor (ignis originarius) que acaba quase não mais sentindo aquela necessidade própria do homem de receber dos outros algum afeto para que possa transmitir afeto; a alma se sente plena e transbordante do afeto divino; e a dimensão do agir: a união da alma com o Absoluto reverbera nas atitudes e na ação.
O episódio ocorrido na noite de Natal deste ano na Basílica de São Pedro em Roma é, de certa forma, um símbolo dos tempos atuais. O Papa, Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra, cai. A mitra, símbolo de sua autoridade, rola no chão. A férula, que representa a sua missão de pastor universal, é derrubada pelo homem moderno, desorientado, confuso e como que fora-de-si. Louca ou não, a jovem de 25 anos que provocou o incidente bem representa o mundo de hoje, que joga por terra a autoridade e as palavras do Romano Pontífice, que, na expressão da grande Santa Catarina de Siena, é «o doce Cristo na Terra». A jovem é louca? Não sei. Mas sei que o é, e muito, o mundo que rejeita Deus e o seu Cristo para abraçar o vazio e caminhar nas trevas. Bento XVI se ergue rápido e continua seu caminho. Celebra a Santa Missa, que é o que há de mais sublime sobre a face da Terra, rende o verdadeiro culto a Deus e conserva-se em seu lugar, como pastor colocado à frente do rebanho pelo Pastor Eterno, ...
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