Pular para o conteúdo principal

Santo Tomás, sabedoria, fé e razão

                                                                                                         
Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Ser sábio é dito daqueles que, considerando o fim, tudo ordenam em conformidade com ele: "pertence ao sábio ordenar"[1]. As artes arquitetônicas ou principais dirigem as inferiores, assim como a arte médica ordena a arte farmacêutica, uma vez que o fim da farmácia é a medicina. Desse modo, são chamados sábios os artífices das artes arquitetônicas, pois que lhes compete ordenar para o devido fim as artes inferiores.

Todavia, o sábio por excelência, o único propriamente digno desse nome, é o que considera o fim último de todas as coisas e, por isso, está em condições de tudo ordenar em conformidade com ele: "O nome sábio, porém, é simplesmente reservado só para quem se dedica à consideração do fim do universo, que é também o princípio".[2]

O propósito fundamental de Santo Tomás é realizar o ofício de sábio, ou seja, considerar o fim último do universo, que é também o Princípio de todas as coisas. Tal propósito está claramente exposto no primeiro capítulo do primeiro livro da Suma contra os gentios.

Como teólogo cristão que é, o Aquinate tem plena consciência de que a sabedoria por excelência está encerrada na verdade professada pela fé católica, que, evidentemente, considera Deus, que se nos revelou em Jesus Cristo, como o princípio e fim de todas as coisas. Daí a frase de Santo Tomás, que liga o conceito de sábio ao de verdade católica: "Confiando na piedade divina para prosseguir neste ofício de sábio, embora isto exceda nossas forças, temos por firme propósito manifestar, na medida do possível, a verdade que a fé católica professa, eliminando os erros contrários a ela".[3]

Na Suma Teológica, Santo Tomás aplica-se o título de "mestre da verdade católica"[4] e define a teologia (sacra doctrina) como "de toda a sabedoria humana..., a mais alta, não relativa, mas absolutamente".[5] Ora, sendo a verdade católica a suprema sabedoria, o mestre da verdade católica deve ser considerado o sábio por excelência.

Vê-se, pois, que tanto na Suma contra os gentios quanto na Suma Teológica, embora sejam obras distintas quanto à finalidade e ao modo de abordar as questões, a preocupação do autor é a de tratar da verdade suprema das coisas, tal como convém a um sábio, e transmiti-la aos outros.

Essa verdade, como dito, encontra-se na fé católica, cujo conteúdo provém da revelação que o próprio Deus, princípio e fim do universo, fez de si mesmo e do plano de sua salvação. Disso Santo Tomás, teólogo católico, não duvida, é claro.

Acontece, porém, que compete também ao sábio refutar os erros contrários à verdade suprema. Como poderia o sábio, no caso o teólogo (“mestre da verdade católica”) disputar com alguém que não aceita a autoridade das Sagradas Escrituras, em que se encontra a revelação de Deus?

"Deve-se recorrer à razão natural"[6], responde Santo Tomás. É então que vem à tona a questão das relações entre fé e razão. Os princípios da razão natural são universalmente válidos, de modo que com ela todos devem concordar. Se a razão não pode demonstrar toda a amplitude da verdade revelada, ela poderá, sem dúvida, orientar o homem para a conveniência de acatar a revelação, já por demonstrar seus preâmbulos (praeambula fidei), sua conveniência e seu fato histórico, já por indicar que a verdade da fé não é contrária à razão, mas está para além de sua capacidade finita de compreensão.

O Doutor Angélico confia profundamente no acume da razão, pois que a considera um dom de Deus. Pela razão, o homem pode atingir verdades fundamentais, tanto no plano teórico como prático. Com efeito, a razão pode, a partir das criaturas, alcançar o criador e glorificá-lo como convém; chegar ao princípio absoluto do mundo através das coisas sensíveis. A isso, aliás, São Paulo já acenara[7], retomando a tradição sapiencial da Escritura.

Conforme Aristóteles, a quem Santo Tomás se dirige sempre com o respeitoso cognome de "o Filósofo", a razão constitui a diferença específica que distingue o homem dos brutos. Sem ela, o homem já não seria homem. Renunciar ao uso da razão equivaleria a afrontar a própria dignidade humana.

Por tudo isso, o Santo Doutor valoriza muito a razão, embora tenha consciência de seu limite criatural, e convida o homem a valer-se constantemente dela. Mesmo a aceitação da revelação, cujo conteúdo ultrapassa os limites da razão, não se faz contra ela, mas, para ser um ato responsável e humano, com a ajuda dela. Segundo Santo Tomás, o homem não se submeteria à fé se a razão não lhe indicasse que deve fazê-lo. Aqui estamos diante de uma profunda questão filosófica. Está indicado que o filósofo, no exercício do próprio ato filosófico, que confere à razão absoluta autonomia em seu próprio domínio, pode reconhecer a conveniência do assentimento à fé. A tal atitude, que perfaz o caráter de um autêntico ato de racionalidade, Santo Tomás alude na frase: “O homem não acreditaria se não visse que o objeto de fé é credível”[8]. Não se crê em qualquer coisa, mas o reconhecimento do fato de uma autêntica revelação de Deus, que é infalível, leva o homem ao ato de fé na Palavra divina: "Ora, não cremos em verdades que excedem a capacidade da razão humana, a não ser que tenham sido reveladas por Deus".[9]

O pensamento de Santo Tomás é, sem dúvida, ao mesmo tempo, a afirmação da racionalidade humana e o reconhecimento da verdade revelada em Cristo. Fé e razão, assim, são as asas que levam o homem para as altitudes da contemplação da Sabedoria eterna.

[1] TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os gentios, I, c. I. [2] Idem. [3] Id., Ibid., I, c. II. [4] Id. Suma teológica. Caxias do Sul/UCS, Porto Alegre/EST-Sulina, 1980, prólogo. [5] Id., Ibid., I, q. I, a. 6. [6] TOMÁS DE AQUINO, Suma contra os gentios, op. cit., I, c. II. [7] Diz São Paulo: "De fato, as perfeições invisíveis de Deus -não somente seu poder eterno, mas também a sua eterna divindade- são claramente conhecidas, através de suas obras, desde a criação do mundo" (Rm 1, 19-20); cf. Sb 13, 1s. [8] “Non enim crederet nisi videret ea esse credenda” (Suma teológica, op. cit., II-II. q.1, a.4). [9] TOMÁS DE AQUINO, Suma contra os gentios, op. cit., I, c. IX.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Considerações em torno da Declaração "Fiducia supplicans"

Papa Francisco e o Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé Este texto não visa a entrar em polêmicas, mas é uma reflexão sobre as razões de diferentes perspectivas a respeito da Declaração Fiducia supplicans (FS), do Dicastério para a Doutrina da Fé, que, publicada aos 18 de dezembro de 2023, permite uma benção espontânea a casais em situações irregulares diante do ordenamento doutrinal e canônico da Igreja, inclusive a casais homossexuais. O teor do documento indica uma possibilidade, sem codificar.  Trata-se de uma benção espontânea,  isto é, sem caráter litúrgico ou ritual oficial, evitando-se qualquer semelhança com uma benção ou celebração de casamento e qualquer perigo de escândalo para os fiéis.  Alguns católicos se manifestaram contrários à disposição do documento. A razão principal seria a de que a Igreja não poderia abençoar uniões irregulares, pois estas configuram um pecado objetivo na medida em que contrariam o plano div...

Fim último do homem

 Deus deve ser o fim último do homem por três razões principais, conforme a teologia moral tomista: 1. O Fim Último Deve Ser o Bem Supremo e Infinito O fim último é aquilo que pode satisfazer plenamente a vontade humana. Mas a vontade humana deseja o bem universal, ou seja, não um bem particular e limitado, mas o Bem Infinito, que abrange toda a perfeição. Nenhum bem finito pode saciar completamente o desejo humano de felicidade, pois qualquer bem criado é limitado e deixa um espaço para desejar mais. • O dinheiro, o poder, os prazeres e a sabedoria humana são insuficientes, pois são finitos e passageiros. • Somente Deus, que é o Ser Infinito e a Bondade Suprema, pode preencher esse anseio sem deixar espaço para mais desejo. Como diz Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” ( Confissões , I,1). 2. O Fim Último Deve Ser o Bem Perfeito O fim último do homem é aquilo que lhe dá a felicidade plena e definitiva, ou seja, ...

“Modelos de Revelação”, de Avery Dulles

  O livro Models of Revelation , de Avery Dulles, apresenta uma análise detalhada da teologia da revelação, abordando como esse conceito tem sido compreendido ao longo da história cristã e, especialmente, no pensamento teológico moderno. O autor busca organizar e avaliar as principais abordagens sobre a revelação, agrupando-as em cinco modelos distintos. Seu objetivo não é apenas descrever essas perspectivas, mas também compará-las e explorar suas limitações e potenciais convergências. PARTE I: OS MODELOS DE REVELAÇÃO Na primeira parte do livro, Dulles apresenta os principais modelos que os teólogos têm utilizado para compreender a revelação de Deus. 1. Modelo da Revelação como Doutrina • A revelação é entendida como um conjunto de verdades proposicionais ensinadas por Deus e transmitidas por meio da Bíblia e/ou da tradição eclesiástica. • Para os protestantes dessa linha, a Bíblia é a fonte exclusiva da revelação, sendo inspirada e inerrante. • Para os católicos, a re...