terça-feira, 11 de agosto de 2009

Escatologia individual, intermediária e coletiva

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

De acordo com a fé da Igreja, podemos distinguir uma escatologia individual, uma escatologia coletiva e uma escatologia intermediária[1]. A escatologia individual trata do que se dá com o Homem quando termina sua vida neste mundo. Com a morte do Homem, dá-se o início da escatologia individual. "A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, do elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que subsista o 'eu humano', ainda que temporariamente privado do complemento do próprio corpo"[2]. Esse elemento, a Tradição da Igreja o designa por alma. Bento XII, com a Constituição Benedictus Deus de 1336[3], declarou que, imediatamente depois da morte, os justos, se não necessitarem da purificação do purgatório, gozam da visão face-a-face, mesmo carecendo do complemento do corpo ressuscitado. Mas, a fé da Igreja sustenta com vigor a ressurreição da carne: "...o estado de sobrevivência da alma depois da morte não é definitivo nem ontologicamente mais alto, mas 'intermédio' e transitório, e ordenado, em último termo, para a ressurreição"[4]. A ressurreição da carne é uma doutrina especificamente cristã e porta em si um selo contra todo dualismo que considera a matéria como algo mau em si. A matéria faz parte da nossa história e, como tal, será também glorificada. Ademais, a doutrina da ressurreição afirma muito claramente a seriedade das realidades terrestres, uma vez que o corpo com o qual caminhamos verá a glória e os atos deliberados desta vida ecoarão na eternidade. Isso nos leva a empenhar nossa liberdade, desde já, cooperando com a Graça, para que o Reino se manifeste o mais possível neste mundo, até que atinja sua plenitude no outro.

O purgatório, outra realidade afirmada pela fé da Igreja, é o estado provisório daqueles que, fundamentalmente, partiram desta vida orientados para Deus, mas com resquícios ainda do Homem velho. Neste estado, a alma se purifica no amor de Deus, para se conformar plenamente a Cristo e abrir-se sem empecilho algum à Beleza infinita de Deus.

Essas afirmações nos levam a dizer que há um estado intermediário entre a escatologia individual, que começa logo após a morte, e a coletiva, que se dará por ocasião da consumação final do plano de Deus, ocasião em que a matéria também participará, de modo novo e inusitado, da Glória e Beleza divinas, e cada alma será dotada do complemento de seu corpo transfigurado, à semelhança do corpo glorioso de Jesus ressuscitado.

A fé da Igreja afirma ainda a real possibilidade da frustração definitiva da liberdade humana. Se se quer levar a sério a liberdade humana, deve-se dizer que ela pode ser capaz de recusar a participação na vida divina oferecida por Deus. A liberdade que recusa Deus, perde-o, e tal perda, que é a perda do único Bem e Beleza que não deveríamos perder, constitui a essência daquilo que chamamos de inferno. O inferno, pois, deve-se à liberdade que se recusa participar da vida de Deus em Cristo. É a fealdade por excelência, pois consiste na negação do que o Homem, por graça de Deus, deveria ser; negação da sua perfeita e sobrenatural realização.

Enfim, a mensagem da escatologia cristã dá ao coração humano uma perspectiva fundamentalmente otimista, pois nos dá a conhecer que não estamos sozinhos em busca da beleza. A Beleza em si, Deus, existe e é, não só o termo para o qual caminhamos, mas o principal promotor e garante de nosso sucesso no percurso, pois que, com amor, firmeza e suavidade, nos conduz para a sua própria intimidade, em que o dinamismo eterno da Beleza perfaz o infinito gáudio da vida divina. A Beleza infinita chama-nos a, desse gáudio infinito, sermos partícipes.



[1] Cf. COLLANTES, Justo. A Fé Católica. Rio de Janeiro: Lumen Christi, c. X, p. 1166. Citado abaixo como FC.

[2] FC, n. 0.066.

[3] Cf. FC, n. 0.016ss.

[4] COMISSÃO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA. Esperança cristã na ressurreição. Algumas questões atuais de escatologia. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 35.

7 comentários:

  1. Deus lhe pague, Padre! Eu tinha algumas dúvidas a respeito e foram quase todas sanadas!

    Pergunto: as almas que estão no céu, com a ressurreição, continuarão a contemplar a face de Deus?

    In Iesu et Maria,

    Luiz

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  2. Prezado Luiz,

    Sim; as almas que já estão no céu (visão beatífica) nunca mais o perderão. Por ocasião da realização plena do Plano de Deus, a matéria também será glorificada, e, assim, o corpo participará da glória da alma.

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  3. Padre, sobre Nossa Senhora peço por favor sua ajuda:

    A Bula diz que "foi preservada imune de toda mancha do pecado original."

    O O Catecismo S.Pio X diz também que ela foi preservada.

    E o CVII mais o novo catecismo diz que ela foi REMIDA.

    Resolva essa Padre: Como Nossa Senhora pode ser REMIDA e, ao mesmo tempo, CO-REDENTORA!

    Até hoje em toda internet, NINGUÉM soube resolver esta questão (furada) da qual o CVII se meteu!

    Lisardo

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  4. Caro Lisardo,

    Na verdade, não há contradição em dizer que Nossa Senhora foi PRESERVADA do pecado original e, ao mesmo tempo, REMIDA.

    É dogma de fé que Cristo é o Redentor universal do gênero humano. Logo, Cristo, remiu a todos os homens, inclusive Nossa Senhora. Essa, afirmação contudo,não nos leva a dizer que Maria Ssma. tenha contraído o pecado original, uma vez que, de fato, não contraiu (é o que diz o dogma da Imaculada Conceição). Como resolver a questão?

    A S. Igreja a resolve fazendo uma distinção, que remonta ao bem-aventurado Duns Scot. Há dois modos de remir: um, preservando a pessoa de que caia no pecado; outro, retirando-a da queda. Este último modo foi aplicado a todos os homens, exceto a Maria Ssma., que foi remida pelo primeiro modo - por uma remissão mais sublime. Nossa Senhora foi, assim, preservada do pecado original.

    In Christo et Maria,

    Pe. Elílio

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  5. Pe. Elilio,

    Primeiramente obrigado por responder. Gostaria de aprofundar na resposta pois debato com protestantes e eles me põe em situações que às vees não sei o que responder. O novo catecismo não dá rspostas precisas, assim como o Sr. o faz.

    Veja bem...

    A pessoa(em uma única ação) não pode ser ao mesmo tempo, reu e juiz. Executor e executado. Advogado e cliente. Vendedor e comprador. Criminoso e vítima etc etc etc

    Concordo que ela tenha sido PRESERVADA, mas REMIDA, não!

    REMIR: redimir, resgatar, pagar a dívida.
    REMIDA: resgatada. Aquela que teve a dívida paga.
    REDENTOR: Aquele que redime, que resgata, que paga a dívida.

    Jesus pagou nossas dívidas. Ele resgatou a humanidade. Redimiu a humanidade.

    A pergunta é: Como Nossa Senhora pôde, ao mesmo tempo, ser devedora e credora? COmo pôde ela ser remida, ser resgatada e ao mesmo tempo resgatar a humanidade. Nessa situação, a que colocou o CVII e novo catecismo, como ela pode ser CO-REDENTORA?

    Das duas uma: Ou ela foi REMIDA ou foi (co)REDENTORA!

    Preciso que a Igreja me dê respostas FIRMES, precisas e não suposições e ambíbuas como o novo catecismo dá.

    Obrigado mais uma vez!

    E rogo sua benção!

    Lisardo

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  6. Prezado Lisardo,

    Em primeiro lugar, deve ficar claro que Cristo é Redentor UNIVERSAL. Isso é dogma de fé. Assim, TODOS os seres humanos são remidos por Cristo, INCLUSIVE Nossa Senhora. Se Nossa Senhora não tivesse sido remida por Cristo, Cristo não seria o Redentor universal do gênero humano, o que seria uma grande heresia.

    REMIR ou REDIMIR quer dizer também SALVAR. E pode-se salvar alguém, impedindo-o de que caida em má situação. Se Nossa Senhora não tivesse sido cumulada de graça, em vista dos méritos de Cristo, ela necessariamente seria concebida com o pecado original, que é a condição comum do gênero humano. Maria Ss. foi salva da sorte comum do gênero humano por graça de Deus, em previsão dos méritos de Cristo. E essa é a maneira mais sublime de remir. Veja que a Bula da definição da Imaculada Conceição insiste na graça especial que lhe foi CONCEDIDA em previsão dos méritos de Cristo.

    Quanto ao fato de Maria ser chamada de CO-REDENTORA, deve-se à sua íntima participação na obra de Cristo. Maria Ssma. não pode ser vista como redentora no mesmo plano de Jesus. Jesus é o ÚNICO e SUFICIENTE Redendor. No entato, a partir da graça que ela RECEBEU dos MÉRITOS DE CRISTO, ela colaborou com a obra da Redenção como nenhum outro ser humano. Tal colaboração, sem dúvida, levou-a a adquirir méritos diante de Deus, mas sempre a partir dos méritos de CRISTO.

    Quando nós fazemos frutificar os méritos de Cristo em nossa vida, também adquirimos méritos diante de Deus, mas sempre a partir dos méritos do Salvador. Por isso, o Missal Romano diz a Deus no Prefácio dos Santos: "Quando coroais seus méritos [os dos santos], exaltais vossos próprios dons".

    Os méritos dos Santos podem ser revertidos por Deus em favor da nossa salvação, de modo especialíssimo os de Maria Ssma. É assim que devemos compreender o seu título de Co-redentora.

    À disposição,

    Pe. Elílio

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  7. Conclusão:

    Ou seja, quando se diz que ela foi preservada, quer dizer, foi salva por antecipação. Daí se diz "em vista dos méritos de Cristo, ela necessariamente foi concebida sem o pecado original"

    E quanto a Co-redentora não há dúvidas, mesmo porque(Conf. São Paulo diz) aquele que completa na carne o sofrimento de Cristo de certa forma não deixa de ser um co-redentor.

    Mais uma vez agradeço sua atenção e peço-lhe que ore por mim!

    Lisardo

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