quarta-feira, 8 de junho de 2011

Para pensar


Igreja Católica perde espaço nas favelas

Henrique Munhos 
Especial para o Diário

Facilidade na abertura de templos, força leiga e mais calor humano. Fatores como esses fazem com que, nas favelas, as igrejas evangélicas conquistem cada vez mais fiéis, que antes eram convertidos ao catolicismo.

O número de católicos no Brasil vem caindo nos últimos anos, de acordo com pesquisa do IBGE. Em 1991, 82,24% dos brasileiros eram católicos, proporção que caiu para 74% em 2010. Grande parte migrou para igrejas evangélicas, que somavam 9% de fiéis em 1991, número que hoje bate na casa dos 15,4%.

Segundo o professor de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, Nicanor Lopes, 50 anos, esse fenômeno ganhou força a partir da década de 1970. "O que os católicos não perderam em quatro séculos, perderam em 30 anos."

Nas favelas e comunidades mais pobres, a disparidade entre o número de igrejas ou capelas católicas e evangélicas é imensa. "Igrejas evangélicas são construídas de uma hora para outra, em qualquer local. E também somem rapidamente. Já as capelas católicas são fundamentadas nas paróquias e têm uma estrutura maior", disse o padre Francesco Commissari, 45.

Ele é o coordenador da Paróquia Jesus de Nazaré, que fica na Vila São José, em São Bernardo. Além dessa, outras 14 capelas em locais pobres da cidade, como os bairros do Montanhão, Jardim Silvina e favela da Biquinha, são de sua responsabilidade. Mas Commissari estima que o número de igrejas evangélicas nesse mesmo território passe de 100. 

O pastor Marcos José Martins focou nesse tema durante seis meses, quando realizou uma tese de mestrado sobre a ‘Liderança da mulher pentecostal na periferia do poder, clero institucional na cidade de Diadema'. Somente na Vila Nogueira foram contabilizadas 44 igrejas evangélicas e cinco comunidades católicas.
Por serem autônomas, as igrejas evangélicas surgem em grande número, até como forma de rivalidade. "Há uma disputa muito grande entre lideranças. Por isso, é fácil observa uma igreja ao lado da outra, assim como dez em uma mesma rua", explicou Martins.

De acordo com Francesco Commissari, os moradores das favelas vão a menos à igreja. O envolvimento dessa população, devido à falta de conhecimento, é mais complicado. Ele também avaliou que a rotina estafante muitas vezes afasta a população do templo. "Muitos saem às 5h para o serviço e voltam somente à noite, e sobra pouco tempo livre."

O pastor João Navarro, 35, da Igreja Nazareno de Utinga, em Santo André, apontou que o trabalho dos leigos faz a diferença na fidelidade dos evangélicos. "Nossa força leiga é muito forte, e realiza trabalho em diversos lugares. Além disso, pequenos grupos fazem reuniões semanais, seja na igreja ou até nas próprias residências. Isso ajuda a difundir a religião."

Grande parte dos moradores das comunidades mais pobres é de migrantes nordestinos. Esse povo, que já sofre com uma condição de vida muitas vezes inadequada e tem dificuldade na adaptação, percebe um acolhimento maior na Igreja Evangélica. Esse também é um dos dados do estudo de Marcos José Martins. "Além de sentirem mais calor humano, essas pessoas têm maior afinação com os pastores, que em grande parte também são nordestinos."

CRÍTICAS

Para o Padre Francesco Commissari, a maior procura dos moradores das favelas pelas igrejas evangélicas acontece porque acreditam que ali resolverão seus problemas. "De acordo com a doutrina evangélica, você é um abençoado por Deus. Por isso, se tiver fé e acreditar, não sofrerá mais."

Padres revelam dificuldades para conquistar fiéis

Como forma de conquistar fieis, os padres buscam realizar novos trabalhos nas comunidades. Muitas vezes, as propostas são similares às executadas nas igrejas evangélicas.

Ajudar as pessoas em suas dificuldades, como problemas médicos, é considerado um dos principais pontos ressaltados pelos pastores evangélicos como diferencial.

O padre Francesco Commissari, da Igreja Jesus de Nazaré, afirma que tenta realizar esse tipo de trabalho, mas a falta de padres impede que isso aconteça com maior intensidade. "Aqui, temos 13 capelas e apenas três padres. Até tentamos nos aproximar do maior número de pessoas, mas é difícil."

Padre Odair Agostin, da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, em Diadema, completou: "Tenho 60 mil fiéis aqui nacomunidade, e só eu de padre. É impossível atender todo mundo."

A dona de casa Maria Lúcia Teixeira disse que essa atenção contou no momento de mudar de religião. "Sou evangélica há 28 anos. Gostei do modo como eles pregam, das músicas e da atenção que as pessoas te dão", afirmou.

Agostin também declarou que a Igreja Católica tem de dar um poder maior para os leigos, assim como os evangélicos. "Precisamos descentralizar o poder e colocá-lo nas mãos dos leigos. Temos uma cultura conservadora, que só aceita a palavra do padre."

Outra reclamação de Agostin diz respeito à própria classe. "Precisamos falar uma linguagem mais simples. Muito dessa evasão acontece por conta de as pessoas não entenderem o que queremos passar."

Para o padre da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, há de se tomar cuidado na tentativa de conquistar devotos. "Não se pode trazer só por trazer. Se eu tocar certo tipo de música na igreja, certamente muitos jovens vão aparecer. Agora, o importante é que os fiéis tenham o mesmo compromisso de antigamente."
Sobrinho busca seguir os passos do tio

Por conta de uma parceria entre a Diocese de Ímola e a de Santo André, Francesco Commissari chegou da Itália há quatro anos. O padre trabalha na mesma área desbravada pelo tio, Leo Commissari, que foi assassinado em 1998, na favela do Oleoduto, em São Bernardo.

Francesco encontrou apenas uma vez com o tio, quando este foi passar férias na Itália. O então menino tinha 12 anos, e se lembra pouco do padre que trabalhava no Brasil desde 1978.

Porém, é impossível não saber sobre a importância do trabalho de Leo Commissari em São Bernardo. "Ele tinha uma preocupação muito grande com as pessoas, seja na forma material quanto espiritual. Além disso, ele deixou uma marca muito forte, que foi o centro profissionalizante", lembrou Francesco.

O Centro de Formação Profissional Padre Leo Commissari, criado em 1996 e localizado na Rua Padre Leo Commissari, no Jardim Silvina, atende cerca de 600 pessoas. O local disponibiliza 11 cursos profissionalizantes, como corte e costura, padaria industrial e mecânica de autos.

Soma-se a isso atendimento psicológico, fonoaudiólogo e massoterapêutico e sete cursos culturais, como dança, teatro e capoeira, realizados aos fins de semana.

Segundo Francesco e a irmã Elisângela Dilma Miranda, 28, coordenadora de uma creche no Oleoduto, a violência diminuiu muito desde a época da morte do padre Leo. "Antes era muito mais perigoso por aqui", afirmaram.

Um comentário:

  1. Parabens:
    Este texto diz muita coisa que deveria ser mudada,principalmente acolhida estou cansado de ver padres entrar na igreja principalmente quando convidado a celebrar e não dar um bom dia aos que estao á porta, as pessoas não se comprimentam nem no abraço da paz fica muito automatico deveria ter mais calor humano, como subir no altar falar de misericordia se nem damos bom dia? ainda bem que são poucos. tem muita gente leiga que merecia mais oportunidades,mas como na carta aos corintios, sem amor nao somos nada.
    Saude E Paz

    ResponderExcluir