domingo, 21 de junho de 2009

A Liturgia não é qualquer brincadeira

Padre Elílio de Faria Matos Júnior

A Liturgia não é qualquer brincadeira. Se ela, deveras, tem um aspecto lúdico, pois que, como um jogo, tem suas próprias regras e não é algo que possa ser reduzido ao domínio do útil, sua grandeza, contudo, consiste em manifestar ao homem a beleza de Deus e de sua salvação. Daí a necessidade de a Igreja, depositária da Revelação, cuidar, sempre com renovado interesse, de que a Liturgia seja celebrada de tal modo que, por ela, a beleza de Deus se comunique à alma e à sensibilidade dos fiéis, arrebatando-os, de algum modo, do mundo do dia a dia para introduzi-los na esfera do sagrado, em que as razões do ser, do agir e do fazer encontram seu sentido derradeiro.

Assim, a Liturgia não pode ser compreendida como uma celebração que o homem inventa e faz por si mesmo. Ela contém algo de maior. Uma Liturgia que não fosse celebrada como um dom não poderia, em última na análise, oferecer salvação alguma. Ela reduzir-se-ia a um culto narcísico, que colocaria o homem diante de sua própria imagem, e, no fim, diante de sua própria indigência e insuficiência, pois que só um Deus que se dirige a nós, e não o homem, pode salvar-nos.

O Rito Romano, ao longo dos séculos, sempre se caracterizou pela sobriedade e pela beleza de suas celebrações, e, desse modo, esteve apto a comunicar às almas o senso do sagrado que nos envolve, fazendo os fiéis lançarem raízes nas profundezas do mistério de Deus, cujo esplendor reside no convite que nos faz à beatitude perfeita por Cristo, com Cristo e em Cristo.

O que hoje se observa, de um modo geral, é que a compreensão da Liturgia como algo que não pode ser construído, sem mais, pelo homem, e que, portanto, deve ser acolhido como um verdadeiro dom, está se esvaindo da consciência dos fiéis. Quantas comunidades julgam poder “fazer” sua liturgia como bem entendem, às vezes desprezando explicitamente a sabedoria bimilenar da Igreja codificada nos livros e regras litúrgicos... Quantas vezes a Santa Missa, que é o que há de mais sagrado na Igreja, é invadida por atitudes que não correspondem à sua sacralidade e ao senso de mistério que deve acompanhá-la... Quantas vezes saímos da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar, como disse Adélia Prado, tão grande o barulho e o espetáculo vazio do homem que se regozija consigo mesmo... Será que uma Liturgia simplesmente construída pelo homem à sua imagem e semelhança pode satisfazer-lhe aquelas zonas mais profundas do ser, onde só o mistério de Deus pode penetrar?

O Papa Bento XVI tem dado sinais claríssimos de que deseja uma Liturgia celebrada de maneira a manifestar a sacralidade que lhe é constitutiva e, assim, garantir aos fiéis uma verdadeira mistagogia - iniciação ao mistério e à beleza infinita de Deus. Queira Deus que a Igreja inteira seja dócil à orientação do pastor!

7 comentários:

  1. Interessante , a dificuldade no entendimento da real concretude de suas palavras... A quem critica ?Quem celebra a missa ? Quem coordena as pessoas que organizam a missa? Como lidam os padres com os leigos ?Que carisma eles praticam? Se os leigos atuam tanto não é porque o padre não atua nada? Como os padres estão buscando pelas suas ovelhas? Qual o tipo de liturgia atrai o homem de hoje? Não será o tempo de observar que se não nos ocuparmos em mostrar um Deus entendimento que jamais poderemos saber quem ele é? Não acredito em uma celebração onde a comunidade opte pelo lúdico sem que ele não dê o retorno de seu entendimento... acredito que há maneiras diferentes de se levar Deus aos outros os fazendo entender de forma simples , no linguajar a eles inerente , sem que eles se sintam subjulgados pelo padrão formal, mostrando quão grande é o amor do Pai e quais são nossos propositos e desejos para com esse amor . Como isso chega até o cristão ,sendo um ato de respeito , deve ser analisado caso a caso e não jogar um artigo ao acaso.
    Vamos acreditar na atuação do Espirito Santo dentro da liturgia , que ele leve até os leigos a sabedoria eterna dos padres, quem sabe assim , fazendo de uma forma compreensiva , nossa igreja encha de novo com o ardor do amor que tanto almejamos. Que Deus nos dê essa sabedoria , porque acredito que só a ele pertence.

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  2. Prezada Laila,

    Critico a todos os que têm destruído o sentido autêntico da Liturgia, tal como a Igreja sempre o entendeu ao longo dos séculos, por modismos e subjetivismos: Músicas despropositadas - não litúrgicas -, excesso de criatividade que destoa do mistério celebrado, barulho às vezes ensurdecedor, falta de respeito pelo sendo do sagrado, etc.

    Meu artigo se inspira em vários textos do Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI. A Liturgia não é algo que simplesmente se inventa de acordo com os gostos e as épocas. O seu núcleo é um dom de Deus e é sagrado, e, como tal, não manipulável. Do contrário, ela seria um culto do homem a si mesmo.

    Aproveito para indicar-lhe uma leitura: RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Paulinas: Lisboa, 2001.

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  3. Reverendo padre Elílio sua benção,
    Algumas e muitas vezes já me deparei com a expressão de uma idéia sendo de uma ou outra maneira tal qual diz Laila acima na destaco, no tocante a compreensão da Verdade: "...fazendo entender de forma simples , no linguajar a eles inerente , sem que eles se sintam subjulgados pelo padrão formal...".
    Por questões que tocam a filosofia e o senhor acredito deve bem saber mais do que eu, hoje e em sua grande maioria cristãos foram abdicados a pensar, assim é que quando se se depara com algo mais "formal" logo a alguns há que isso seja um escandalo tal pois que a Deus, a Igreja e seus ministros não devem se expressar assim aos fiéis. Mas ledo engano. Me deparei a alguns dias atras com um sermão de santo agostinho belíssimo, e contando o tradutor e pesquisador sobre os cristãos do século deste santo diziam o quão valor dava os cristãos as palavras e os sermões proferidos pelo ministros de Cristo, a ponto de alguns terem decor o sermão e repetir, e ensinar a outros. E veja quão "formal" foi santo agostinho em seus sermoes, escritos, obras não é mesmo padre? Que "Deus entendimento" ele falou não é mesmo? E o que dizer dos escritos de S. Paulo -por exemplo- que mesmo o beatissimo S. Pedro reconhecia de uma alta erudição de não menos valor?. Por fim de meu ligeiro comentário padre, me estreito com o senhor no ponto tocante aqueles que fazem da liturgia como diria pessoalmente uma cacofonia ou como se expressou um prelado "um faça você mesmo" ao seu gosto.
    Que Deus e a Virgem Gloriosa ajude a Bento XVI a restauração por Cristo na Igreja.
    Ad Majorem Dei Gloriam!
    Rodrigo

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  4. Prezado Padre Elílio, sua benção! Quero parabêniza-lo pelo blog e também por sua postura em relação a liturgia. Que Deus ilumine sacerdotes como o senhor, pois a Santa Igreja necessita muito em nossos dias. Aproveito para convida-lo a ler meu blog Lumina virtutum:www.luminavirtutum.blogspot.com Que Cristo confirme sua vocação.

    Hilton Valeriano

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  5. Revmo. Pe. Elílio,

    Sua bênção!

    Que alentador ler essas palavras. É bom saber que ainda resta esperança, em meio a tantos abusos litúrgicos que testemunhamos Brasil afora ... Missas 'sertanejas', 'afro' etc. etc. etc., sem contar os abusos rotineiros. E a bateria? Lamentável! Esquecem que a Liturgia é para Deus, e não para o homem ... Desobedecem a voz do Vigário de Cristo, esquecendo as rubricas e documentos importantes como a Redemptionis Sacramentum. Que Nossa Senhora interceda por nós, para que cada vez mais Sacerdotes do Altíssimo se interessem por celebrar bem a Sagrada Liturgia!

    Aproveito para divulgar o blog de alguns amigos: http://www.salvemaliturgia.com/

    Abraços e fiquem com Deus,

    Léo

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  6. A benção, padre!

    sou 1 jovem de 26 anos
    comecei a tocar em missas aos 11, comunguei aos 12, me crismei com 13 (e toquei em minha própria crisma...)e ja nesta eopca tocava em varios grupos da rcc, catequese, encontros, missas etc
    fui seminarista dehoniano do scj aos 15 mesmo nesta posição visita outras igrejas (evangelho triangular, presbiteriana ...), depois do que, entre 16 e 25 anos passei por escolas hindu, xamanicas, budistas, vaishnava, teosoficas, cristica (como Santo Daime)e catolicismo sincretico brasilico (até compus uma lírica missa em tupi antigo)...

    hoje reconciliado com minha mater et magistra tanto quanto tendo podido estar (e peço a deus todos os dias que me aceite, a mim que tanto errei em mil direções, tão próximo dEle e de seu corpo místico - ekklesia- quanto lhe aprouver, posto ter 1 desejo profundo de ser acalentado todos os dias no seio desta mater)tenho por principal foco de realização pessoal em minha vida a aproximação À mesma do sacrificio cristico de maneiras mais tradicionais... fidedignas ao espirito próprio que tal Sacrificio exige...

    infelizmente as pessoas de 1 modo geral, muitas vezes pensam que o "o que eu acho que isso quer dizer" é mais importante do que "aquilo que estáe sendo dito"

    as interpretações das interpretações das interpretações ..etc... acaba substituindo o que de fato se estava interpretando

    por isso parabenizo pessoas como o sr que reconhecem o valor "por si" que o sagrado possui

    http://arte-sacra.blogspot.com
    [webradio de musica sacra]

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  7. Belo artigo!
    "Queira Deus que a Igreja seja dócil à orientação do Pastor!"
    para tanto: a) existe supervisão eclesial da linha teológica ministrada aos seminaristas nos seminários católicos?(A Teologia da Libertação substitui sacralidade pela socialidade e anula disciplina hierárquica);
    b)ocorreu profanação do Espaço Sagrado das igrejas com sepultamento dos reis, rainhas, imperadores etc.- Espaço Sagrado foi loteado e vendido para sepulturas;exposição de cadáveres( corpos incorruptos) no Espaço Sagrado;
    c) ocorreu profanação do Território Sagrado próximo às igrejas; foi loteado e vendido às imobiliárias;
    Referências: Ezequiel; 42-45.
    Portanto SURSUM CORDA

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