terça-feira, 3 de março de 2009

Quem está contra o Vaticano II?

Hans Küng, famoso e controvertido teólogo suíço, volta a contestar e criticar amargamente o Sucessor de Pedro. Suas invectivas contra Roma são já conhecidas desde tempos remotos. Recentemente (25/2/2009), publicou-se uma entrevista sua no jornal Le Monde, que diz que a Igreja, com Bento XVI, corre o risco de se tornar uma seita.

Não quero dizer que é ilegítima toda e qualquer crítica à autoridade eclesiástica. Conhecemos já pelo texto bíblico a contestação que São Paulo fez à atitude discriminatória de São Pedro para com os pagãos em Antioquia. A crítica, pois, desde que seja justa, criteriosa, movida por amor à Igreja e com o devido respeito, é possível. Mesmo em se tratando do Papa, pois que a infalibilidade papal, na qual a fé católica nos manda crer, requer condições bem definidas para se exercer, de modo que o Papa não é infalível sempre e em qualquer ato seu.

Entretanto, sinceramente, não vi na entrevista de Küng nem respeito, nem justiça, nem muito menos amor. O teólogo suíço parece mostrar todo seu rancor contra a instituição eclesiástica, que, a justo título, proibiu-lhe, nos tempos de João Paulo II, o ensino em nome da Igreja, pois que já não representava a teologia católica.

O problema central que move as acerbas críticas de Küng é relativo à concepção de Igreja. É um problema eclesiológico. É relativo, para colocar o dedo na ferida, à interpretação do Concílio Vaticano II. Sua irritação, em última análise, não se deve simplesmente ao fato de o Papa ter levantado a excomunhão dos quatro bispos lefebvrianos, entre eles o polêmico Dom Williamson. Deve-se, antes, ao que isso manifesta e representa.
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E o que o levantamento da excomunhão representa? Na visão de Hans Küng, representa a desvalorização do Vaticano II, tal como interpretado por ele:
Para mim é escandaloso que, no cinqüentenário do lançamento do Concílio por João XXIII (janeiro de 1959), o Papa não tenha feito o elogio de seu predecessor, mas tenha optado por suspender a excomunhão de pessoas opostas a esse Concílio”, disse. Küng vê em Bento XVI um opositor da modernidade e da reforma que o concílio trouxera à Igreja: “No fundo, Bento XVI tem uma posição ambígua sobre os textos do Concílio, porque ele não se sente cômodo com a modernidade e a reforma. Ora, o Vaticano II representou a integração do paradigma da reforma e da modernidade na Igreja católica. O Mons. Lefebvre nunca a aceitou, e seus amigos na Cúria também não. E nisso Bento XVI tem uma certa simpatia pelo Mons. Lefebvre.
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A meu ver, tudo se resume na questão: Qual o verdadeiro Concílio Vaticano II? Tanto os lefebvrianos quanto Küng consideram que o concílio significou uma ruptura na vida da Igreja. Nisso eles estão de acordo. Com uma grande diferença, é claro. Enquanto Küng vê essa ruptura como algo bom e desejável, os lefebvrianos a vêem como uma traição à mais legítima Tradição católica. Na verdade, ver o concílio como ruptura, como introdução de uma nova Igreja, é o grande erro de ambas as partes.
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Nenhum concílio pode, por natureza, transformar-se simplesmente numa Assembléia Constituinte, porque a Igreja não está entregue aos Padres conciliares como se eles fossem deputados da vontade popular e tivessem, assim, autonomia para legislar e provocar rupturas fundamentais. São, antes, administradores do que vem do Senhor. A Igreja possui uma constituição fundamental imutável que lhe foi dada por Cristo mesmo. Assim, os Padres conciliares jamais poderiam mudar a Igreja, provocando uma ruptura com o passado, como querem tanto os lefebvrianos como os progressistas ao estilo de Küng; ninguém lhes podia ter dado esse mandato. É o que ensinou Bento XVI quando, em seu discurso à Cúria, em 2005, por ocasião das festas natalinas, falava sobre os 40 anos do encerramento do concílio:
Os Padres não tinham tal mandato e ninguém lhos tinha dado; ninguém, afinal, podia dá-lo porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor e nos foi dada para que pudéssemos chegar à vida eterna e, partindo desta perspectiva, conseguimos iluminar também a vida no tempo e o próprio tempo.
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Hans Küng quer que a Igreja se transforme cada vez mais ao sabor dos tempos e dos gostos. Não lhe interessa muito perguntar se algo nos vem do Senhor e, por isso, deve permanecer inalterado. E o atual Papa é muito cioso da Tradição da Igreja, porque tem a clara consciência de que nem tudo na Igreja é obra e decisão humana. Há algo colocado pelo Senhor mesmo. Por isso, disse uma vez, quando ainda era Cardeal: "Reforma verdadeira não significa tanto um atarefar-se para erigir novas fachadas, e sim procurar fazer desaparecer, por todos os modos, aquilo que é nosso, para que apareça melhor o que é Seu, do Cristo".
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Do fato de que a constituição fundamental da Igreja vem do Senhor, segue-se o seguinte: Se houver na Igreja um evento fundador de uma nova religião, ou que pretenta anular a Igreja de sempre para colocar uma nova, totalmente distinta, em seu lugar, esse evento não deve contar com a aquiescência dos católicos, ainda que ele seja um concílio. Seria um falso concílio.
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Nesse sentido, Bento XVI tem combatido grandemente uma mentalidade, que se instalou em muitos ambientes eclesiais e que tem feito grande mal à causa do Evangelho, segundo a qual o Vaticano II deu-nos carta branca para fazer da Igreja o que julgarmos melhor. E é essa posição clara e firme do Santo Padre que lhe atrai tanto ódio daqueles que vêem na Igreja, antes de tudo, um grande canteiro de obras simplesmente humanas. E essa mesma justa posição o faz, evidentemente, mais próximo dos lefebvrianos do que de Küng, uma vez que os lefebvrianos, embora tenham dificuldades com o Vaticano II (que se quis simplesmente pastoral) - o que precisa ser superado-, não chegam a negar dogmas da fé, enquanto Küng já o fez (veja-se o questionamento lançado pelo estudioso contra a infalibilidade papal). O levantamento da excomunhão, além de ser um ato de misericórdia do Santo Padre para com os lefebvrianos, mostra que Bento XVI sabe ver onde existe um profundo amor sobrenatural pela Igreja, Esposa de Cristo, ainda que esse amor precise ser corrigido em certos aspectos.
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Quanto ao verdadeiro Concílio Vaticano II, tanto Bento XVI como seus predecessores que governaram a Igreja nos tempos pós-conciliares, a saber, João Paulo II e Paulo VI (que, sucedendo a João XXIII, deu continuidade ao concílio e conduziu três de suas quatro sessões), nunca o viram como uma ruptura na vida da Igreja, mas, sim, como uma renovação na continuidade da Tradição. O concílio quis apresentar de maneira nova a doutrina de sempre, sem alteração ou modificação de significado. Das atas conciliares pode-se colher a intenção dos Padres, que não era a de negar o passado nem a de fundar uma nova Igreja. Nenhum ensinamento autorizado da Igreja apresentou o Vaticano II como ruptura. E como vimos, nenhum concílio, por natureza, pode apresentar-se como ruptura. Quem é, então, que está sendo infiel ao concílio? Bento XVI ou Küng?
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Padre Elílio de Faria Matos Júnior

2 comentários:

  1. Caro Pe. Elílio,
    Também lamento por todo e qualquer cisma (que consiste na "recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos" (Cânon 751).
    No caso de Hans Küng, dos brasileiros Leonardo Boff, Frei Betto (que também desrespeitam o Papa) das recentes e lamentáveis críticas de Dom Clemente e etc, não se pode reconhecer uma legítima expressão de liberdade teológica, porque, como nos lembrou João Paulo II, "na oposição aos ensinamentos dos Pastores,não se pode reconhecer uma legítima expressão da liberdade cristã nem da diversidade dos dons do Espírito" (Encíclica Veritatis splendor nº 113). Neste mesmo parágrafo da Veritatis splendor, o memorável Papa nos explicou que "a discordância, feita de interesseiras contestações e polêmicas através dos meios de comunicação social, é contrária à comunhão eclesial e à reta compreensão da constituição hierárquica do Povo de Deus" (nº 113).
    “Ninguém pode tratar a teologia como se fosse uma simples coletânea dos próprios conceitos pessoais; mas cada um deve ter a consciência de permanecer em íntima união com aquela missão de ensinar a verdade, de que é responsável a Igreja” (João Paulo II: Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 19).
    Em Roma, O decano do Colégio cardinalício, Cardeal Angelo Sodano,protestou contra Hans Küng.
    "Um ataque infundado": É o que afirma em um comunicado a Conferência Episcopal da região italiana do Piemonte respondendo às injustas críticas feitas ao Papa Bento XVI por Hans Küng.
    Oremos pelos cismáticos. São uns infelizes.
    Luís Eugênio Sanábio e Souza

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  2. Boa tarde Padre,
    São oportunas e equilibradas as suas considerações sobre a matéria. A questão tem sido debatida exaustivamente nos meios de comunicação e entre estudiosos. Como leigo, me considero despreparado para me aprofundar... Porém, como católico e interessado, acredito que seria relevante destacar que em conformidade com as palavras do Nosso Senhor JESUS CRISTO, devemos sempre estar atentos aos frutos. Sei,o Espírito Santo assiste a igreja, porém, no mundo reina maligno e a mesma está inserida nesse mundo. Assim sendo, as palavras de Jesus devem ser sempre considerada, mais ainda em se tratando da igreja. Existem demolidores e construtores. Pelos frutos, fica fácil identifica-los. O Papa, com a graça de Deus, como ficou bem apontado em seu artigo, já identificou os demolidores e onde existe, em potencial, os construtores. Os frutos são e serão sempre a resposta. Sua benção Padre.

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