sexta-feira, 6 de março de 2009

Espírito do Concílio?

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Enviaram-me o seguinte texto, que traduzi do francês:

“O catolicismo sofre de uma falta de modernidade”, escreve Rudolf Walter no semanário de esquerda Der Freitag. “E isso não concerne à atitude midiática do papa e da Cúria. Trata-se de um modo de reflexão ultrapassado e de promessas não realizadas. Contrariamente ao “espírito do Concílio”, o papa defende com rigidez a supremacia da Igreja católica sobre as outras religiões. Ele se refere quanto a isso à unidade presumida de razão e de fé, e preconiza a superioridade de Roma em virtude da proximidade privilegiada da fé católica com a razão. Ele se apóia sobre um conceito de razão de antes da época das Luzes. Segundo essa corrente filosófica, não convém condenar ou insultar a religião, mas estabelecer uma fronteira entre fé e conhecimento, isto é, proteger o saber dos ataques religiosos e preservar a fé de exigências racionalistas... Sob a pressão da teologia da libertação, da emancipação da mulher e de outros movimentos modernos, Ratzinger se opõe cada vez mais à modernidade – e se marginaliza cada vez mais” (» Ensemble de la revue de presse de mercredi, 4. mars 2009).

Essas palavras de Rudolf Walter bastam para termos uma idéia do que se defende apelando-se ao presumido “espírito do Concílio”. Em nome do Vaticano II, o texto defende: a) a relativização da Igreja católica e sua equiparação às demais religiões; b) a separação entre razão e fé, conhecimento e religião; c) a introdução de uma razão “iluminista”, que, todos sabemos, é racionalismo e secularismo; d) outras coisas mais parecem ser sugeridas pelo texto: aceitação da teologia da libertação, da ordenação de mulheres e de movimentos modernos (Quais seriam? Movimento abortista? Movimento gay? Movimento de casais homossexuais?). Defende tudo isso acusando o Papa Bento XVI de ser infiel ao “espírito do Concílio” e de se opor à modernidade.

Ora, se o tal “espírito do Concílio” deve nos levar a tudo isso, melhor seria chamá-lo de “espírito de Satanás”. Seguir o caminho proposto é querer destruir a Igreja. E o concílio foi convocado para revigorá-la, não destruí-la; para renová-la, sim, mas sem trair a sua constituição fundamental.

Poderá a Igreja renunciar à sua consciência bimilenar de que é, não por mérito próprio, mas por graça, a depositária da Revelação de Deus por meio de Jesus? Poderá ela abrir mão da Revelação que lhe foi confiada para equiparar-se às demais religiões? Com todo o respeito que nutre pelas religiões, a Igreja tem consciência de que ocupa um lugar singular no Plano de Deus, lugar este que não pode ser equiparado aos demais. E essa consciência foi reafirmada pelos textos do concílio.

Poderá a Igreja separar a razão e a fé? O que ela propõe para o homem é algo irracional? É apenas um sentimento? Se ela acredita em Deus como criador e revelador, a razão pode estar separada da fé? Se Deus cria a razão humana e também propõe a fé, como estas instâncias podem estar separadas? Ora, embora a fé seja distinta da razão, uma contribui com a outra. A fé sem a razão degenera em superstição, e a razão sem a fé torna-se incapaz de enxergar mais longe, até o fim sobrenatural a que Deus nos elevou. Ademais, o homem, do qual Deus pede a fé, é um ser racional. O iluminismo é que faz muito mal ao separar razão e fé.

Sobre a teologia da libertação, muito já se discutiu. Deve-se dizer que há várias teologias da libertação. E algumas correntes fiéis à Igreja trouxeram seu contributo para a reflexão teológica e para o próprio Magistério. É claro que a Igreja não pode aceitar as correntes mais extremadas, que se valem de um sistema filosófico fundamentalmente ateu – o marxismo- para elaborar seu discurso, que por sua vez, fica marcado por uma incompatibilidade radical com as exigências da fé. Ademais, a epistemologia de certas correntes da teologia da libertação sofre de um vício que coloca em questão sua própria natureza teológica. Ao pretender fazer do “pobre” a fonte principal de sua reflexão, compromete a natureza propriamente “teológica” de seu discurso.

Quanto à ordenação de mulheres, a Igreja já se pronunciou que não se sente autorizada para fazê-lo. Não se trata de descriminalização. De jeito nenhum. O ser humano – puramente humano - mais reverenciado na Igreja é uma mulher: Maria Santíssima. E na Igreja não deve contar tanto o cargo que se ocupa, mas a santidade de vida, que é o que realmente nos faz grandes aos olhos de Deus.

E que dizer dos “movimentos modernos” que deveriam ser aceitos em nome do espírito conciliar? Pode-se aceitar tudo em nome do concílio? Faz muito bem Bento XVI em insistir na verdadeira interpretação do maior evento eclesial do século XX, o Concílio Vaticano II.

4 comentários:

  1. "Ora, se o tal “espírito do Concílio” deve nos levar a tudo isso, melhor seria chamá-lo de “espírito de Satanás”. "
    Ri de alegria ao ler tal verdade.
    Interpretar o Concílio não é tão difícil. Basta honestidade intelectual de ser fiel a seu texto.

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  2. Prezado Márcio,
    Continuemos a lutar pelo verdadeiro Vaticano II, pelo seu verdadeiro espírito!

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  3. Caro Pe. Elílio.
    Parabéns pelo seu Blog.

    Gosatria de comentar algo sobre os resultados do Concílio:

    Cheguei ao Catolicismo depois de uma trajetória de "autodescoberta" e de encontro com a Igreja Católica Romana. Ao ler as obras de São Francisco de Sales descobri a grande quantidade de equívocos do protestantismo, principalmente do calvinismo. Concordo que o Concílio Vaticano II não é uma "mudança" total do espírito da Igreja. Entretanto, devido às aberturas para a nova liturgia, todas as missas que "ia" me sentia como na Assembléia de Deus (não era nem como numa igreja Luterana). Infelizmente não consigo suportar as coisas que agora são aceitas: guitarras, pandeiros, bateria e o padre sequestrado pela comissão de liturgia (ou pela agenda lotada). Seria melhor continuar com a "missa de sempre".

    O que é ser um padre na igreja pós-conciliar? Um animador de auditório? O Sr. Marcelo Rossi pode ser comparado com padres que sofreram martírios em nome da fé? Não creio. O mesmo vale para os carismáticos da Canção Nova, para eles Jesus é uma espécie de mago.

    Lembro que na minha infância (em Canoas, RS) conheci um Padre Jesuíta que todos chamavam "irmão Constantino": usava batina preta (ruça), sapatos pretos e tinha por companheiro um guardachuva (com sol ou não). Contudo, onde o Irmão Constantino passava deixava um conselho, uma reprimenda aos frequentadores dos bares em pleno dia, aos meninos e meninas que andavam nas ruas sem seus pais e de pés descalços e ainda tinha tempo para conversar com as pessoas. Infelizmente o Irmão Constantino já se foi para junto do Pai e não foi substituído por um sacerdote à altura. Imagino hoje Srs. como Marcelo Rossi ou Melo (cantor) andando nas ruas e aconselhando pessoas, repreendendo o pessoal da cervejinha ou mesmo enfrentando traficantes e drogados. Não me parece possível. Mas, eu lecionei Filosofia para seminaristas e pude ver com meus próprios olhos a vontade, o empenho pela Igreja e a preocupação com a propagação da fé. Em algum ponto, caro Pe. Elílio, isto se perde

    Por certo que a vida eclesiástica possui dificuldades, mas sou professor de filosofia e casado e também enfrento dificuldades. Portanto, não creio que dedicar-se à propagar o reino de Deus para o Ser Humano deveria ser uma tarefa fácil. Ao mesmo tempo, não vejo preparo algum na educação dos padres de hoje. A autodenominada teologia da libertação encanta os jovens com suas palavras "mãntricas" e filósofos com Derrida e Heideger (relativistas) são mais importantes que Tomas de Aquino ou Ludwig Wittgenstein (que possuia vários católicos como alunos).

    Creio que toda esta situação é obra do Concílo Vaticano II. Por certo, discordo que o "espírito do concílio" seja acolher todas as maluquices da sociedade. Mas, devido à influência modernista (se entendo bem o que isto significa) a Igreja está sofrendo com a confusão liturgica e de formação, pois a tradição católica foi abandonada e afirmada como anacrônica. Bem, talvez seja exagero meu. Talvez deva dizer que "ser Católico Apostólico Romano" atualmente é algo bem difícil de ser definido, ainda mais quando comparado com o Concílio Vaticano I.

    Desculpe meu tom "azedo", mas é triste ver a Missa transformar-se em muitos casos em um "culto quase profano": os padres em cantores e apresentadores ou "animadores" de auditório. Que tipo de profundidade de fé podemos encontrar em missas assim? Ora, não faz sentido os Católicos tornarem-se "pentecostais" nem "murmurantes" de línguas .....(aquilo é uma vergonha!)

    Me surpreendi positivamente com seu Blog.

    Abraço.

    Arturo Fatturi

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  4. Grande Elílio... poderíamos conversar talvez sobre a questão da ordenação de mulheres pela igreja católica, acho o assunto interessante, e tenho opinião um pouco divergente da que você coloca...
    Daria um excelente diálogo...

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