domingo, 4 de janeiro de 2009

Salvemos a liturgia!

O texto abaixo ("Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia"), publicado no final de 2007, vai ao âmago da questão sobre o descaso que a liturgia católica tem sofrido nos últimos anos. Mostra a posição de Adélia Prado, reconhecida poetisa mineira, sobre os nossos maus procedimentos litúrgicos. Como enfatiza Adélia, não se percebe que o modo de se comportar diante do Mistério não é o mesmo com o qual nos comportamos na diversão, na recreação, na conversa com os semelhantes etc. O povo é o primeiro a perceber a diferença. No entanto, as práticas litúrgicas dos últimos anos, decorrentes de uma equivocada interpretação da reforma litúrgica promovida pelo Concílio do Vaticano II, não querem ver a diferença, e, em nome de adaptação ao povo, têm feito grandíssimo mal ao mesmo povo.

Bento XVI, quando era ainda o Cardeal Ratzinger, lançou um livro sobre liturgia (
Introdução ao espírito da liturgia. Lisboa: Paulinas, 2001), no qual podemos encontrar valiosíssimas reflexões e orientações. É uma tentativa de ajudar a criar uma nova compreensão litúrgica, após muitos desvarios do pós-concílio. Ratzinger faz aí afirmações muito próximas às de Adélia Prado:

A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como ‘nomeação’. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade – pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso de nossa existência” (p.15; os grifos são nossos).

E, por ocasião das celebrações dos dez anos do Motu Proprio Ecclesia Dei, afirmou de modo bem rotundo:"O Mistério sagrado foi substituído por uma criatividade selvagem".

Padre Elílio de Faria Matos Júnior


Vejamos as afirmações de Adélia, nas quais fizemos alguns grifos para destacar afirmações importantes:



Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia

Por Alexandre Ribeiro

APARECIDA, domingo, 2 de dezembro de 2007 (
ZENIT.org).- Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum».

«A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.

Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.

Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.

«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»

Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».

«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.

Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que
«o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».

Segundo a poetisa, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».

«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.

«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio.
Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.

De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis),
«muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».

«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»

Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.

«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»

«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»

Segundo Adélia,
o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.

«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –.
«Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».

«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.

«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»

Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».

«E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.»

«Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.

Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».

Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».

Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.

«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»

«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.

E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:

"Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém”.

7 comentários:

  1. Quero parabenizar a este blog tão repleto de textos necessários e inteligentes. É sintomático a percepção da poetisa. Não precisa ser religioso nem teólogo para perceber a grande mudança sofida na Igreja. Em alguns casos chega a ser insuportável assistir à missa devido todo o imbróglio perpetrado por Padres e asseclas. Graças a Deus o Papa Bento XVI decretou o Motu Proprio Summorum Pontficum. Eis uma arma eficaz para se voltar à glóia nunca perdida do brilho católico.
    Parabéns, Pe. Elílio pela iniciativa do blog

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  2. Prezado Antônio Manuel,

    Rezemos e trabalhemos para que a Sagrada Liturgia seja respeitada e sua execução seja colocada no devido lugar.

    Tenho para mim que uma das causas da forte crise de fé por que passa a Igreja está nas deformações litúrgicas a que assistimos atônitos.

    Obrigado pelo comentário!

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  3. Só um "grande Tomista" para ter a iniciativa de defender,com muita sabedoria e equilíbrio, o espaço sagrado e o mistério do pão e do vinho, que diariamente se perpetua em todos os lugares do mundo sobre a mesa da Palavra e da Eucaristia...
    Hoje, o silêncio está fazendo falta para sentirmos "a resposta trinitária" em nossa alma.
    Estou com saudade das aulas de filosofia no ITASA.
    Aqui em Vitória estamos a sua disposição. Abraço.Jayme Milanezi. Parabéns pelo Blog

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  4. Muito prezado Jayme,

    Que bom receber notícias suas! Já há um bom tempo não nos vemos...

    Obrigado pelo comentário e pela disponibilidade.

    Abraços em Cristo!

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  5. Reverendíssimo Padre Elídio,

    Nossa conterrânea mineira faz juz a liturgia pura. A Missa foi feita por NOSSO SENHOR e não por um humano, por isso ela não pode ser mudada.
    O barulho não faz bem e o bem não faz barulho. Precisamos sair do mundo para entrar na casa de Deus e não sair do mundo para entrar novamente no mundo. As músicas, instrumentos, acenos e danças não são católicas. A música é o sopro do criador. Não necessitamos de mais nada a não ser a voz que imita o coro dos anjos.

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  6. Reverendíssimo Pe. Elídio,

    Primeiramente peço-lhe a sua benção.
    Gostaria de parabeniza-lo pela iniciativa de criar um espaço genuinamente católico e assima de tudo tomista. Também compartilho com sua postura sobre a Sagrada Liturgia que tanto aprendi a amar e defender. Fico feliz mesmo! Que bom poder contar com mais um blog para nos cumular de conhecimentos da Sã Doutrina Cristã: a Católica! Já dizia um estimado bispo e professor de filosofia tomista, Dom Manuel Pestana Filho, que um tomista sempre faz a diferença. Parabens mais uma vez e que Nossa Senhora de Fátima, por sua poderosa intercessão, possa vos garantir as Graças necessárias para que permaneça sempre fiel e perseverante em sua iniciativa.

    Abraços e até mais 'ver'.

    André Víctor

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  7. desejo parabenizá-lo esse blog, mas desejo saber em rezenha o espacço sagrado pode ser bem curto, o altar, o ambão, a ornamentação, a sede, o evangeliário,a luminária, o incenso, o aleluia, o beijo ao evangeliário, a cruz.agradeço, o meu e-mail é Antonio.carlos.pereira7@gmail.com

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