quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A Igreja e o Reino

.
A Igreja, tenho dito isto repetidamente, não é um mero acessório no Plano de Deus. Ela integra o mistério da salvação. O Reino de Deus, que almejamos e que é dom de Deus para nós, não está, de modo algum, desvinculado da Igreja. Embora a Igreja, em seu estado de peregrina neste mundo, não realize plenamente o Reino, embora o Reino não esteja contido dentro das fronteiras visíveis da Igreja, embora o Reino transcenda a Igreja considerada em seu aspecto social e visível, ele, o Reino, já se encontra em germe nela e não pode ser concebido sem uma relação estreitíssima com ela. Desse modo, a Igreja não é apenas um sinal, entre outros, do Reino. Ela não é apenas “chamada” a ser “o melhor sinal”, como já ouvi alguém dizer por aí. Tal afirmação peca contra o legítimo conceito católico de Igreja. Ela, na verdade, é já o Reino em germe (cf. Lumem gentium, 5), é "o" sinal visível e indefectível do Reino, é o "sacramento universal da salvação" (Lumen gentium, 48) .

Foi uma concepção equivocada, que tem vigorado em certas linhas de pensamento teológico, que, querendo combater o que foi chamado de “eclesiocentrismo”, desvinculou o Reino e a Igreja, em favor de uma tal teologia “reinocêntrica”, segundo a qual o Reino de Deus, sendo a grande meta, deixa relativizada a Igreja. Desse modo, o Reino passou a ser considerado de tal forma que a sua relação com a Igreja foi empalidecida ou mesmo negada. E o próprio conceito de Reino sofreu violência ao ser tomado prevalentemente em sentido terrestre, como se outra coisa não fosse senão a realização da justiça e da paz social, o que nos leva à idéia de um vago reino de Deus em que o próprio Deus fica entre parênteses. A Igreja, nesse sentido, seria apenas um sinal do Reino entre outros tantos, já que qualquer entidade governamental, associação filantrópica ou ONG pode trabalhar muito bem em favor da justiça e da paz social. Não que a justiça social e a paz entre os homens sejam indiferentes ao Reino. Mas o Reino é muito mais. É a participação na vida divina.

Segundo a concepção “reinocêntrica”, o Reino poderia chegar sem relação com a Igreja. Para as posições mais extremadas dessa concepção, a Igreja seria uma espécie de acessório descartável, que, muitas vezes, teria mesmo prejudicado a implantação do Reino. Tal entendimento desconhece a natureza da Nova Aliança, que é sacramental no sentido forte da palavra: Deus quer valer-se de realidades sensíveis livremente escolhidas por ele, como a humanidade do Verbo, a Igreja visível, os sete sacramentos, para levar a efeito a obra salvífica. Desconhece o “mistério da Igreja”, do qual tanto fala o Vaticano II. Desconhece que a Igreja foi feita indefectível por graça de Deus, embora encerre no seu seio frágeis pecadores.

A indefectibilidade da Igreja, com a qual Cristo quis ornar sua Esposa, é a garantia de que, apesar de todas as fraquezas humanas que nela atuam, ela não pode falhar substancialmente em sua missão, e não pode ser reduzida simplesmente a um sinal entre outros do Reino. Ela é “o” sinal. Por disposição divina, o único Mediador entre Deus e os homens quer fazer-se presente entre nós mediante seu Corpo, que é a Igreja. Assim, a Igreja católica é a única via ordinária que nos conduz a Cristo, Mediador e Plenitude da Revelação, o Reino de Deus em pessoa, uma vez que Cristo a quis como instrumento e sacramento da salvação; somente nela estão presentes todos os elementos salvíficos queridos por Cristo, embora fora de sua demarcação visível se encontrem elementos de santificação e verdade. São palavras do Concílio Vaticano II: “Só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares” (Unitatis Redintegratio, 3). Essa Igreja é a bandeira erguida entre as nações, de tal modo que o Reino de Deus, inaugurado por Jesus, nela atua eficazmente sem possibilidade de perda.

A declaração Dominus Iesus, publicada em 2000 por ordem do grande e saudoso Papa João Paulo II, recorda a doutrina eclesiológica tradicional do magistério eclesiástico, ao dizer que, por disposição de Deus, a salvação não se dá sem relação com a Igreja: “A Igreja é 'sacramento universal da salvação', porque, sempre unida de modo misterioso e subordinada a Jesus Cristo Salvador, sua Cabeça, tem no plano de Deus uma relação imprescindível com a salvação de cada homem (20, o grifo é meu). Mesmo aqueles que se podem salvar fora dos quadros visíveis da Igreja em virtude de sua consciência cândida, podem-no por uma graça que mantém uma relação misteriosa com a Igreja, à qual Cristo Redentor uniu-se de modo irrevogável.

Padre Elílio de Faria Matos Júnior
Arquidiocese de Juiz de Fora

2 comentários:

  1. Boa tarde Padre,
    Parabéns pelo artigo.
    Sinto que haverá em breve um fortelecimento da igreja. Os sacerdotes realmente comprometidos com a Verdade se destacarão pelo aprofundamento na fé e pelo conhecimento, assim, serão muitos e bons os frutos que colherão. Que Deus derrame graças sobre a sua obra. Continue firme. Nós precisamos de suas palavras. Sua benção

    ResponderExcluir
  2. Revmo Pe Elilio,
    a benção!

    Muito bom o artigo. Chega a ser absurda a idéia de que não existe relação entre o Reino de DEUS e a Igreja. A relação entre a Igreja e Cristo apresentada por São Paulo (analogamente a relação corpo/cabeça), sugere o reinado de Cristo visível na humanidade. Todo Reino tem uma cidade de onde se expande, no caso do Reinado de Cristo, esta cidade é a Igreja.

    É interessante observar que antigamente algumas das vias tomistas para se demonstrar a existência de Deus, eram contempladas na própia Igreja. Na via do movimento, por exemplo, observava-se uma relação de moventes e movidos que começa em Nosso Senhor, passa pelo Papa, pelos Bispos, Padres, Monges, Freis, leigos, etc. Esta via é a que melhor demonstra a necessidade do primado petrino e o justifica. As vias tomistas, ainda apresentam Deus como ordenador de tudo, como dizia o filosofante acerca do filósofo: "O ofício do sábio é ordenar". Como então não existe uma relação de reino entre corpo e cabeça?

    Algumas doutrinas teológicas, como a teologia da libertação, pregam na verdade o Reino do Homem, como se fosse o Reino de DEUS. Na verdade para esta teologia, no fundo, no fundo, o Paí é o mundo, o Filho é a matéria (logos) e o Espírito Santo é a evolução. É o que se deduz da doutrina panenteísta que estes escondem que produz apenas, o que os antigos chamavam "Prostituição cultual". É uma definição antiga, mas muito presente em nossa cultura moderna que ainda não foi explicítada. Aproveitando então, pergunto-lhe:

    O que seria hoje a prostituição cultual?

    Fique com DEUS e parabéns pelo blog.

    Abraço

    Gederson

    ResponderExcluir